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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Meninos do Pajeú

Saudade do Tempo de Menino


Na caverna profunda da memória
Lembro a vida florindo inocência
Não sabia do negror da consciência
Expressado nos dramas da história.
Minha vida só tinha a flor da glória
Era um mundo coberto de bonança,
Onde o sol da bondade numa dança
Me cobria com um brilho cristalino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.

Galopava num cavalo de pau
Na campina florida do meu sonho;
Um campônio alegre bem risonho
Despertava num instante matinal.
Na floresta o cantar fenomenal
Do concriz, seresteiro que não cansa;
Esse mundo ecoa com pujança
Entre os vales do sonho tão divino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.

Lembro bem das vazantes alagadas
Os tetéus numa orquestra delirante,
As marrecas voando bem rasante
Desenhando no céu linhas curvadas.
Nas campinas florinhas orvalhadas
Perfumava com lírica aliança;
Era um mundo de linda aventurança
Que hoje guardo no sonho campesino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.

Eu pulava no poço mais profundo
Sobre as águas marrons do Pajeú
Com meu corpo esguio, quase nu,
Deslizava num rápido segundo.
Para mim não havia outro mundo
Diferente do mundo da criança;
Era um tempo feliz de esperança
Que hoje guardo na forma de um hino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.

Logo cedo corria pro roçado
Pra cuidar do meu bando de ovelhas,
E ficava feliz vendo as abelhas
Preparando o cortiço encapado.
Para mim, era um mundo encantado,
Que me dava no peito segurança;
Hoje choro por causa da mudança
Que chegou, transformando meu destino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.

Sobre a tela da mente ainda vejo
O Sertão se mostrando na invernada,
A cantiga sutil da passarada,
O semblante feliz do sertanejo.
Na memória, eu guardo o gracejo
Da rolinha mostrando sua andança;
Esse mundo que não tem semelhança,
Ele vive no meu sonho mais grã-fino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.

Inda vejo mamãe na flor do riso
Preparando o café toda manhã;
O seu jeito suave feito lã
Revelava do rosto um paraíso.
A bondade foi seu mundo preciso
Que procuro vivê-la como herança;
É a luz que me dar perseverança
Pra enfrentar esse mundo tão ferino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.


quinta-feira, 27 de agosto de 2009



Sempre encontrei em prefácios de livros de poesia, mais conceitos literários do que o sentido fenomenológico do mundo vivido pelos poetas. Esses conceitos cristalizados geralmente determinam a concepção de "belo" e induz os leitores a uma opinião já formada, desviando a capacidade dos leitores de mergulharem com suas próprias percepções no mundo vivido pelos poetas. O texto abaixo, de minha autoria, além de ser a afetação da experiência estética que Cancão me porporciona, é uma tentativa de mostrar que podemos caminhar com os nossos próprios pés pelo mundo bucólico do poeta Cancão. Após o texto, apresento o seu poema clássico, "Depois Da chuva". Que cada um dê seus próprios passos na poética de Cancão.


O BUCÓLICO MUNDO DO POETA CANCÃO

Mergulhar no universo da poesia de Cancão, nos leva ao mundo do sonho e da fantasia, o qual nos faz crer que a divina providência fez todos os esforços possíveis para realizar através da sua criação magistral, a mais nobre prova da beleza espiritual, expressada através da grandeza bucólica de uma alma que sentiu e externou a natureza sertaneja da forma mais bela e encantadora. Filho do Pajeú pernambucano, lírio sublime da poesia de São José do Egito, o poeta tinha uma sensibilidade e uma capacidade de pintar a natureza através das palavras, que nenhum pintor por mais capacitado que seja conseguiu. Cancão através da poesia mostrou a natureza em movimento. Ao ler seus poemas, a nossa alma assiste os pingos dos orvalhos cristalinos escorrendo no corpo nu das flores; nosso olhar contempla os córregos borbulhando no coração da mata; a audição escuta a voz tristonha de um sabiá na solidão; o sono é despertado com um pequeno rouxinol nas brechas do telhado; nossa admiração contempla as auroras e os arrebóis numa mutação de cores, o corpo sente o delicioso cheiro do mel sendo fabricado na moagem de um engenho; nosso espírito se encanta vendo os pirilampos acendendo e apagando suas luzes na escuridão noturna; nosso Ser vê os campos floridos, cheios de borboletas e colibris dançando numa festa matutina, e se assusta com as tempestades e as enchentes no rio da aldeia egipciense.
Ao debruçasse na poesia do poeta pássaro, um conforto de delicadezas atinge a nossa alma, como o bater das asas de uma borboleta sobre as flores de um plácido jasmim. Cada pingo de orvalho que escorre através dos seus poemas bucólicos, banha nosso espírito de afetos, numa cachoeira de rimas e ritmos, com palavras belas, que embevecem e transbordam a lagoa dos nossos sentimentos. A sua poesia faz as estrelas ficarem bem próximas da gente, nas quais, os dedos da nossa alma podem tocá-las e senti-las, recebendo os fulgores poéticos que clareiam a imensidão dos sentidos. Nos poemas de Cancão tudo se torna possível. O “cisne”, pássaro de outras regiões vem nadar no rio da sua aldeia; a “maresia indiana” traz seu cheiro para perfumar o corpo de uma professora amiga; a pantera solta rugidos nas grutas do seu pequeno lugarejo; algumas flores de outras regiões embelezam as campinas do Pajeú; enfim, o poeta transporta para sua aldeia animais e plantas de outras regiões, construindo um inusitado nicho ecológico.
Cancão conseguiu através de a poesia campestre mostrar a caatinga sertaneja na explosão invernal dos tempos de chuvas da forma mais encantadora possível. Seu poema “Depois da Chuva” desenha a beleza da flora e fauna do sertão nordestino de uma forma tão sublime e bela, que até parece que todos os poros do corpo tinham um olhar de sensibilidade atento para aquela “tarde de abril”, quando o rouxinol, o sabiá, os colibris, os regatos, as borboletas, as abelhas, o sol e as flores, formaram um mundo de encantos bucólicos, ocultados na alma e revelados através de um poema clássico, digno da mais fiel enciclopédia Universal da Poesia.
O poeta/verde conseguiu com profunda sensibilidade e domínio das palavras aproximar o homem da criação divina. Cada verso, que ele fez sobre a natureza, é de uma perfeição tão impressionante, que uma enxurrada de emoções inunda cada lagoa do nosso coração. Mergulhar no mundo do aedo bucólico, saborear seus poemas, sonetos e outras formas literárias nos torna o mais humano dos humanos; faz-nos crer, que o mundo visto por ele e expressado pela verve é o lugar do sonho e da fantasia. Cancão nos proporcionou a viajar nas asas dos colibris, dando beijos nas flores das campinas; nos fez sentar nas estrelas; nos fez sonhar com a liberdade através de um sabiá na solidão de uma gaiola; levou-nos aos riachos cristalinos da sua aldeia; nos fez verter prantos pela rolinha que teve o “Ninho Roubado”; causou-nos uma reflexão profunda sobre a morte, na solidão das “Seis horas no Cemitério”; mostrou-nos os detalhes da casa sertaneja, que abrigava um pobre ébrio solitário; transportou-nos para o mundo dos aborígines do Pajeú, com seus pajés, feiticeiros, caciques, arcos, flechas e tacapes; enfim, a sua poesia é uma viagem de delírios, devaneios e sensações através das belezas da natureza e da profundeza da alma humana.
Sentir os seus encantos poéticos, causa ao espírito humano uma espécie de doçura e ternura angelical. Cresce dentro da gente uma vontade inexorável de contemplar a vida e deixa a nossa existência enternecida.
Mas, como ser humano, Cancão sofreu as dores da solidão. No poema “Lamentos ao pé do tumulo”, ele externa todo o ódio a terra que tanto decantou, por ela ter levado a mulher amada.
Acredito que o poeta do “Pajeú das flores” deve está nesse instante no paraíso celestial da poesia, declamando poemas, acendendo estrelas e jogando orvalhos nas madrugadas celestiais.
Se os gregos de outrora tivessem conhecido a poesia de Cancão, com certeza o teriam posto no trono de Zeus e colocaria na sua cabeça divina a coroa de um Deus/Poeta.
Hoje, depois de vários milênios, pós era grega, e depois de algumas décadas da partida do vate da natureza para morar junto aos deuses das artes no Olimpio celestial, o poeta egipciense é extremamente necessário para esse mundo louco, de tantos sentimentos vazios e mecânicos.
Se um dia Deus resolver mandar um emissário a terra, acredito que será o poeta campestre que virá, trazendo o mesmo espírito humano, a mesma inocência e simplicidade, a grande sensibilidade poética e os ensinamentos de respeito, amizade, fraternidade e solidariedade, que ele tanto mostrou através dos seus versos.
Apesar da sua poesia não denunciar de forma constante as opressões sociais sofridas pelos afortunados e desamparados do poder governamental, Cancão seguiu o mesmo caminho na construção do homem a partir da natureza, como fez o grande filósofo e educador Jean-Jacques Rousseau, no clássico e poético livro, o “Emílio”.
Mesmo não relatando as agressões do homem à natureza, Cancão foi e é uma espécie de educador ambiental. A poesia por si própria educa o homem, e quem lê os versos campesinos do poeta pajeusense, enxerga a natureza de maneira interativa, respeitando-a com carinho e admiração.
Apesar do pouco estudo acadêmico, tendo só cursado o primário da época, Cancão foi um exímio autoditada. Ele leu os grandes poetas clássicos, como Casemiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, dentre outros, sofrendo assim, certa influência dos poetas clássicos. Mas, acima de tudo ele teve um estilo literário próprio, embora tenha escrito alguns sonetos. O mais impressionante era a grandeza da verve. Com poucos temas ele criava um mundo de poesia. Bastava uma cena fugaz de alguma manifestação da natureza, que ele a eternizava de maneira impressionante. Não foi um poeta da viola como a maioria dos poetas contemporâneos, mas glosava de improviso entre os vates amigos com a mesma capacidade dos grandes menestréis do repente.
O nome de batismo era João Batista de Siqueira, mas não poderia existir um apelido mais digno do que Cancão, que é um pássaro de cor preta e branca, que habita as altas arvores da caatinga sertaneja e encanta através de um canto agudo e melodioso.
Todos os amantes da poesia deveriam agradecer ao grande criador do universo, por ter presenteado sobre a forma humana, a prova mais fiel da sua existência enquanto arquiteto das coisas belas que compõem o mundo dos humanos. Cancão, pureza da alma, exemplo de humildade, encantador que usou a poesia para elevar nosso espírito, pincel vernáculo dos poemas campesinos, voz singela dos humildes, plantador de sonhos e fantasias, obrigado por nos proporcionar um mundo belo, cheio de auroras e esperanças, nesses tempos de tantos ocasos e incertezas.
Gilmar Leite
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Depois da Chuva


Era uma tarde de abril
A luz do sol se escoava;
Um traço da cor de anil
O céu deserto mostrava.
Num lago triste e sereno
Nadava um cisne pequeno
Eriçando as alvas plumas.
As derradeiras neblinas
Faziam lindas ondinas
Por entre as brancas espumas.
I
Um sabiá pesaroso
Nos galhos em que nasceu
Cantava triste e choroso
As mágoas do peito seu.
O sol além se deitava
A sua luz se esvasava.
Pela ramagem da horta
A brisa em leves ruídos
Levava os ternos gemidos
Da tarde já quase morta.
II
A água branda descia
Pelo pequeno gramado
A relva fresca e macia
Era um tapete rendado
Se ouvia lá na colina
No coração da campina
Soluçar uma cascata
E o sol com seus lampejos
Dava seus derradeiros beijos
No rosto verde da mata.
III
O sol, com luz amarela
Dourava os morros azuis
Tornando o céu uma bela
Pulverização de luz
A aura fresca e macia
Por entre a mata fazia
Os mais suaves rumores
As borboletas douradas
Se misturavam vexadas
Bebendo o róscio das flores
IV

As auras rumorejavam
Com lentidão e leveza
Os regatos retratavam
Um lindo céu azul de turquesa
Os orvalhos cristalinos
Se desprendiam divinos
Da copa dos arvoredos
Nas carnaúbas rendadas
Como com as mãos espalmadas
O sol brincava em seus dedos.
V
Voavam pelos verdores
Lindos colibris dourados
Sugando o néctar das flores
Dos jiquiris borrifados
No pomar um rouxinol
Contemplava o arrebol
Numa profunda tristeza
Um traço débil de luz
Rasgava os panos azuis
Do corpo da natureza.
VI
Depois os ventos mansinhos
Sopravam no campo vago
Fazendo alguns burburinhos
Na face lisa do lago
As abelhas preguiçosas
Se escondiam nas rosas
Que a natureza burila
E o cisne de brancas penas
Cortava as águas serenas
Da superfície tranqüila.

João Batista de Siqueira (Cancão )

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

RIO PAJEÚ



CONTEMPLANDO O PAJEÚ

Sobre a margem contemplo extasiado
Estender o seu leito, qual um lençol,
Recebendo os cristais beijos do sol
O sutil Pajeú, todo rendado.
O seu corpo ora reto, ora curvado,
Entre as rochas, descendo em corredeiras,
Vai beijando alguns troncos, ribanceiras,
Como alguém que sofrendo está partindo,
Suas águas são lágrimas sentindo
A saudade vertendo em cachoeiras.

Sobre a rocha a pequena “lavadeira”,
Lava as roupas do Deus onipresente;
Diz a crença que o pássaro inocente
Já nasceu pra essa tarefa altaneira.
A branquíssima garça pantaneira
Com encantos demonstra exuberância,
Dando passos com lírica elegância.
E nos cantos que ficam alagados
Os pequenos jasmins bem perfumados,
Soltam das flores, dúlcida fragrância.

Eu me lembro do meu tempo de infância
Desvendando do rio os seus segredos,
Enfrentado os remansos sem ter medos
Escutando um concriz em ressonância.
Só sentia no peito uma ganância
De buscar terra num lugar mais fundo;
Mergulhando sem medo do profundo,
Praticando as mais loucas fantasias,
Dando saltos, fazendo estripulias,
Demonstrando um menino vagabundo.

No seu solo que sempre foi fecundo
Vejo as flores de espécies delicadas,
Exalando as essências perfumadas
Atraindo os colibris num segundo.
As abelhas surgidas de outro mundo,
Com leveza buscam as belas rosas
Pra tirarem de formas carinhosas,
Todo o néctar que existe no vergel,
Pra fazer com perícia o doce mel
Escolhido das flores mais cheirosas.

Olho as águas nas tardes invernosas
Estrondando entre as rochas perfurantes,
Dando curvas com espumas flutuantes
Igualmente as serpentes venenosas.
Elas dão impressão que estão raivosas
Através do barulho da corrente,
Onde penso que cada rocha sente
A partida veloz das fortes águas;
Inundando com lágrimas as mágoas
Recebidas na fúria da enchente.

Um sutil beija-flor voa contente
Entre os galhos dum velho umbuzeiro,
O seu vôo encantado e bem maneiro
Deixa a força da gravidade ausente.
A grandeza da vida na semente
É mostrada através da flor oculta.
Quando a planta nasce, dela resulta,
Um perfume de essência delicada,
Encantando minha alma extasiada
Onde a sabedoria fica inculta.

Um veloz sabiá sem medo insulta
Um cruel carcará sanguinolento,
Sobre a margem usando o passo lento
Surge um cágado com a face estulta;
O fura-barreira de forma culta
Nas barreiras constrói a residência,
Através do local faz reverência
Aos poderes da santa natureza,
Onde a casa respeita a correnteza
Dum inverno que mostra inclemência.

Vejo as águas passarem em turbulência
Arrastando alguns galhos volumosos;
Só ficando umbuzeiros poderosos,
Pois seus troncos têm grande resistência.
Quando passa a enxurrada com fluência,
Fica o rio bem mais calmo e sonolento;
Velhas árvores servem de aposento
Para as aves fazerem lindos ninhos;
O vaqueiro nas margens faz caminhos
Conduzindo a boiada em passo lento.

Quando a tarde desmaia um sentimento
Deixa a face do rio em nostalgia,
Com saudades da luz que tem o dia
Onde a vida possui contentamento.
O crepúsculo num vermelho cinzento,
Faz mudar os fulgores da paisagem,
Dando pouca clareza para a imagem,
Com as pálidas lâmpadas do sol,
Desenhando na tela um arrebol,
Onde as nuvens são monstros da miragem.

Vejo as aves que buscam na ramagem
Um refúgio temendo os predadores,
Que são bichos ferozes caçadores
Procurando animais que tem plumagem.
Um téu-téu dá um grito sobre a margem
Percebendo a presença da serpente;
Nesse instante despertam do latente
Animais que têm hábito soturno,
Entre as folhas caminham no noturno
Procurando algum pássaro inocente.

Um sutil vaga-lume aurifulgente
Aparece de lâmpada na mão,
Clareando a sombria escuridão
Através dum fulgor sempre luzente.
Vejo a lua surgindo do nascente
Com seus raios pintando de dourado,
Desenhando um painel amarelado,
Espargindo um fulgor na correnteza,
Despertando da calma natureza
Algum bicho que vive ocultado.

Meu semblante não dorme extasiado
Contemplando as belezas do sertão;
Através dum rio que tem coração
E por isso me deixa apaixonado.
Só falei do seu córrego invernado
Não citei as correntes de seus versos,
Onde as águas fluem cantos imersos
Na enchente sutil dos sentimentos,
Transbordando de belos pensamentos
A lagoa dos meus sonhos diversos.

domingo, 12 de julho de 2009

Gosto da poesia de uma forma ampla e profunda, independente dos estilos literários. Mas tem 3 estilos que de certa maneira me encantam e me seduzem. São eles: O Soneto, o Galope à Beira Mar e o Decassílabo. A sonoridade e os rítmos dos estilos citados fazem minh alma bailar na sinfonia poética.

Galopes à Beira do Mar

Cheguei do sertão pra morar na cidade
Trazendo na mala os costumes da terra
O vale, a campina, a grandeza da serra,
Os sonhos brotados na flor da idade.
Andei pelas ruas buscando a verdade
Dos sonhos do povo que habita o lugar
Vi gente correndo sem nunca parar
Vivendo o pavor da cidade moderna
Saí correndo com horror da baderna
Fui dar os meus passos na beira do mar.

Pisando nas lindas areias branquinhas
Senti uma cócega sob os meus pés
Eram as correntes fazendo revés
Trazendo mil beijos das águas marinhas.
Fiquei encantado com as brisas mansinhas
Beijando o meu corpo num doce tocar...
Cantigas das ondas num lindo bailar
Chegavam à praia mostrando os encantos
Pensei minha mãe entoando acalantos
Cantando comigo na beira do mar.

Coqueiros gigantes, iguais a guerreiros,
Fincados no chão, balançando as palhas,
Morenos artistas fazendo mil talhas
Cruzando com traços os belos letreiros.
Fiquei encantado olhando os barqueiros
Num simples trabalho mostrar seu lugar
Olhei pras cabanas no meu contemplar
Vi lindas crianças nas formas singelas
Brincando nos barcos, mexendo nas velas
Fazendo castelos na beira do mar.

Sentado na praia, olhando o oceano,
Vi ondas velozes beijando as areias;
O corpo moreno de lindas sereias
Mostrando com graça seu riso arcano.
Nas águas eu vi um poder soberano
Com cores e luzes seu mundo pintar...
Fiquei abismado com seu governar
Ergui a cabeça, pensei do meu jeito,
Que quadro tão belo, que mundo perfeito,
Mostrando aquarelas da beira do mar.

Vi peixes pequenos pulando velozes
Nas cristas das ondas fazendo gracejos
O brilho do sol refletia lampejos
Tocando nas asas de mil albatrozes.
As águas chegavam com garras ferozes
Batendo nas rochas num forte ruflar
A praia mostrava o seu branquejar
Tapetes de espumas beijavam as areias
Deixando seu palco pra lindas sereias
Mostrarem encantos na beira do mar.

O sol se deitava no corpo da praia
Dourando as espumas de cor amarela
O vento dizia que a forte procela
Surgia feroz quando a lua desmaia.
As ondas que eram da cor de cambraia
Ficavam vermelhas com corpo a sangrar
Ergui a cabeça vi Vênus chegar
Jogando reflexos nas águas revoltas
Estrelas pequenas brincavam bem soltas
Jogando lampejos na beira do mar.

O mar revoltoso, por causa da noite,
Batia com fúria nos grandes rochedos,
Deixando minh’alma tremendo de medos
Por causa do forte e infindável açoite.
A lua surgia no céu pro pernoite
Abrindo o seu riso num doce pulsar...
Barqueiros poetas na luz do luar
Cantavam serestas pra suas donzelas
Na praia chagavam as fortes procelas
Mostrando cantigas na beira do mar.

O mar orgulhoso olhava pra mim,
Dizia que tinha imensos mistérios,
No fundo guardava diversos impérios,
Os quais nenhum homem sabia seu fim.
Contou-me que tinha no oculto um jardim
De plantas estranhas que podem matar,
Florestas imensas cobrindo o lugar,
Cavernas ocultas, lugares profundos,
Crustáceos e peixes de excêntricos mundos,
Latentes brincando no fundo do mar.

O dia surgiu, eu fiquei contemplando,
Segredos imensos que tem o oceano;
Sabemos tão pouco, perdemos o plano,
Em cada mergulho que a gente for dando.
Senti no meu peito minha alma agitando,
Eternas correntes que tem meu cantar;
Dei passos nas águas num brando tocar,
Levando nos ombros a minha sacola,
Fazendo improvisos ao som da viola
Cantando um galope na beira do mar.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

DESAFIO: POETAS GILMAR LEITE X ALUIZIO LOPES





POETAS GILMAR LEITE E ALUIZIO LOPES
SÃO JOSÉ DO EGITO, PAJEÚ PERNAMBUCANO








O desafio abaixo, feito em Sextilhas e Galopes a Beira-Mar
foi realizado virtualmente entre os amigos Gilmar Leite e Aluizio Lopes, ambos, patrícios do Pajeú


Sextilhas
Gilmar Leite
O Galego de Tiboa
Já está bastante velho,
Seu corpo tem a idade
Do antigo evangelho
As marcas da sua alma
São rugas dum ser revelho.


Aluizio Lopes

Eu lembro de quem és filho
De "Vigário" nosso amigo,
Você que é muito novinho
Da época de papa-figo
Ainda quer que eu seja
Sobejo de sobre-mesa
Vais se lascar meu amigo.
Gilmar Leite
Coitado do ancião
Que não sabe mais contar
Seus versos são tão compridos
Que podem me atropelar
Mas como sou seu amigo
Pegue na mão de Gilmar

Aluizio Lopes
Não confio no gatilho
Que na queixa tá armado
Sou cascavel escondida
Com veneno apurado
Sou velho, mas subo em cima,
Sou grossa chuva de rima
Se me provoca é finado.

Gilmar Leite
Caba véi, tais enfadado,
No declínio da idade
Um ancião sem vigor
Um ocaso de verdade
O tempo comeu teu ser
És resto de mocidade.
Aluizio Lopes
Eu tenho pena de quem
Quer ser novo sem sustança
Como um coqueiro velho
Sem palha, não balança,
Ser novin que nem você
Eu mesmo não quero ser
Sou roubado na balança.
Gilmar Leite
O galego de Tiboa
Faz tempo que foi aurora
É um sol já declinando
Somente esperando à hora
Que a tempestade do tempo
Diga: Véin, vá embora.

Aluizio Lopes
Há tempos que a mocidade
Deixou você para traz
Quem olha para você
Sabe que não é capaz
Quer cantar, não tem voz,
O que fazia, já "não faz".

Gilmar Leite
Sou um poeta menino
Abrindo a flor da idade
Exalando da existência
Perfumes da mocidade
Minha aurora de criança
Sempre mostra mocidade.

Aluizio Lopes
Sua flor já murchou
Outra parte nem se fala
Nem é novo, tem tem cheiro
Sua essência não exala
Meu passo não acompanha
Veja lá quem tem mais banha
O tempo é feito uma bala.

Gilmar Leite
O galego de Tiboa
Está todo enferrujado
A barriga já cresceu
O corpo está entrevado
Sua cova está gritando
Você é meu convidado.
Aluizio Lopes
Mande chamar todo mundo
Para ver a cantoria
Mande que olhe pra cima
Pra não ver sua agonia
Sua expressão de aperreio
Ou canta ou sai do meio
Do meu dilúvio de rima.

Gilmar Leite
Sou menino na essência
Abrindo a flor do meu sexo
Demonstrando a mocidade
Sem medo, sem retrocesso,
E você é um velhinho
Vivendo só do complexo.

Aluizio Lopes
Eu não quero bater mais
Em respeito a moça bela
Pra não cansar o meu braço
Nem gastar a minha goela
No meu borná tem guardado
Muito verso lapidado
Assim belos, feito ela.

Gilmar Leite
Para sua tenra idade
Que já é crepuscular
Um conforto pra velhice
São os versos de Gilmar
Você vai ficar tão leve
Como a pluma, a bailar.
Aluizio Lopes
Aqui vou me despedindo
Não tenho com quem cantar
Pois no "novin" de "Vigário"
Não pode mais versejar
Não se ressucita um ovo
Que acabou de "gorar".

Gilmar Leite
O galego quer ser boy
Na estrada da idade
Já faz milhares de séculos
Que perdeu a mocidade
É um ancião na terra
O mais velho da cidade.

Aluizio Lopes
Eu vou procurar um poeta
Que saiba cantar repente
Que saiba se esquivar
Do veneno da serpente
Quando mexer com um vate
Que seja be mais prudente.

Gilmar Leite
O teu verso enferujado
Tem a tua aparência
Nem mesmo usando bengala
Te dará mais resistência
O cemitério convida
A tua inexistência.

Aluzio Lopes
Aí você vai ficando
Cada vez muito mais novo
Como na "viagem insólita"
Não faz parte desse povo
Com a força do meu verso
Lhe goro dentro do ovo.
Gilmar Leite
Apanhar de um ancião
Nem mesmo estando amarrado
Por ter pena e respeito
Procuro não ser ousado
É muito feio um jovem
Bater num aposentado.
Aluizio Lopes
Depois vire um bebê
Beba leite em mamadeira
Fale gu-gú, da-dá,
De novo faça besteira
Faça cocô bem "molin"
Se afogue na caganeira.
Gilmar Leite
Pessoa da sua idade
Necessita de respeito
Desde já peço desculpas
Pelo triste preconceito
Não tiro mais a bengala
Usando versos do peito.
Aluizio Lopes
Esqueça que é cinquentão
E diminua a idade
De novo fique menino
E vá ficando a vontade
Brincando de troca-troca
Nos becos desta cidade.

Gilmar Leite
Amigo, tais diferente,
Amigo, envelheceste,
Leve o peso da idade
Que há tempo recebeste
O teu cansaço de vida
Será que tu venceste?
Aluizio Lopes
Pois bem, você vá saindo,
Daí para Caicó,
Comece a estudar de novo
Volte pra terra de Jó
Que você será fabrico
Debaixo de um lençol.
Gilmar Leite
Véin, cuidado na rima,
Usando arrebol e Jó,
A idade o deixou surdo
Eu olhando sinto dó
Nunca vi tão ruim assim
O seu verso é cotó.

Aluizio Lopes
Por aí tem enganado
Dizendo que é poeta
Mas para o povo daqui
Que conhece a coisa certa
Enganou a freguesia
Feito um falso profeta.
Gilmar Leite
Amigo segure as ondas
Deste poeta ousado
Espero que não se zangue
E fique encabulado
Com meus veros de punhais
Os quais tem lhe perfurado.

Aluizio Lopes
Hoje você está distante
Noutras terras foi morar
Nunca fez nada que preste
Na profissão de cantar
Foi se esconder distante
No Estado Potiguar.

Gilmar Leite
Esgotei o repertório
Do poeta ancião
Esqueci da sua idade
Da sua limitação
Desculpas pelos meus versos
Hoje peço compaixão.

Aluizio Lopes
Pra eu cantar com você
Nem preciso de viola
Bato no casco da cuia
No corpo da caçarola
No jogo da poesia
Faço de você a bola.

Gilmar Leite
O galego de Tiboa
Se afastou da cantoria
Com medo dos meus punhais
Na sua mente vazia
Resolveu ficar calado
Adeus até outro dia.

Aluizio Lopes
Eu não corri da peleja
Não faz parte do meu ser
Eu fui fazer um serviço
Que aqui não posso dizer
Mas o produto do tal
Tem mais valor do que você.

Gilmar Leite
Os meus versos afiados
Trouxeram grande perigo
Suas lâminas cortantes
Viraram grande perigo
E terminei afastando
Um ancião, muito amigo.
Aluizio Lopes
Bom dia grande poeta
Voltemos a cantoria
Eu sei que você é grande
Tem força da ventania
Mas para me alcançar
Nunca vai chegar o dia.
Gilmar Leite
Sou motor fórmula 1
És um fusca enferrujado
Tenho a mente de menino
Teu juízo é entravado
Eu andando o mundo inteiro
Tu estais encurralado.
Aluizio Lopes
Oi, não apague não!
Que talvez nasça outro ovo
Se esquive do tejú-açu
Deste réptil papa ovo
E nunca queira mexer
Com o repentista do povo.

Gilmar Leite
Nunca fui nenhum cantor
Sou um vate de primeira
Eu não tenho compaixão
De quem só canta besteira
Seu não fosse sua idade
Eu lhe dava uma rasteira.

Aluizio Lopes
Sim, eu já ia esquecendo
Do poeta que é tão novo,
Tem me chamado de velho
Não quero lhe dar reprovo
Tem um remédio que faz
O "novin" ficar mais novo.


Galopes à Beira do Mar

Gilmar Leite
Cuidado Galego na dor do chicote
Dos versos vorazes que vêm do meu peito
Lhe bato sem pena, lhe pego dum jeito,
Fazendo você penerar num pinote
Dançando um axé, requebrando um fricote;
Jogando o bumbum numa dança vulgar
Chorando, gritando, num triste implotar,
Pedindo de tudo pra não lhe bater
Dizendo é melhor sucumbir e morrer
Do que apanhar do poeta Gilmar.
Aluizio Lopes
Dizer o poeta que não metrifico
Vou lhe perdoar, pois tenho até pena,
Pois antes que chegue o tempo me acena
Também sei se vou, se parto, se fico,
Quando precisar síncope, eu aplico,
Quando é improviso, devo improvisar,
Contemplo as procelas, seu lindo bailar,
Se lança pra frente, depois e desfaz
Um verde azulado, um branco se faz,
Como eu, metrifica, na beira do mar.
Gilmar Leite
Bater num colega me dói no juízo
Se for ancião, como é o seu caso,
Lhe bato com o verso mais besta, mais raso,
E deixo você num voraz prejuízo.
Porém desde já, lhe peço, lhe aviso,
Procure fazer o seu verso ficar
Distante do vate, do mestre Gilmar,
E vá percorrer os lugares sem luz
Levando nas costas o peso da cruz
Morrendo afogado na beira do mar.
Aluizio Lopes
Se for pra cantar em qualquer toada,
Eu só me avisar, que eu mudo meu plano,
Saio do sertão, vou por oceano,
Pois minha cantiga não é ensaiada.
Eu canto o roçado, falo da jangada,
Não repito verso no improvisar
Você tem costume de nada inventar
Pois seu candeiro tá quase sem luz
Você só copia, mas nada produz,
Termina afogado na beira do mar.

Gilmar Leite
Bater no Galego, que coisa tão boa!
Seu lombo macio, aguenta pancada,
O verso cruel no seu lombo é espada,
A mente vazia se perde a toa.
Suplico Galego, cantor de Tiboa,
Seu louco galope complica o andar,
Tem verso com dez, cadência maluca,
Não sei caminhar, endoidece a cuca,
Não corte as pernas na beira do mar.
Aluizio Lopes
Amigo poeta que na praia mora
Que goza, desfruta da bela paisagem,
Não queira você borrar a imagem
De um simples aedo, que a isto ignora,
Você é sabido, na capital mora,
Não ouse você o amigo humilhar
Pois não tem aí o crepuscular
Igual ao sertão, minha amada terra,
De tarde se esconde o sol lá na serra,
Causando ciúme à beira do mar.
Gilmar Leite
Bater num poeta que tem seu tamanho...
Pra mim é maneiro, pois sinto prazer;
Velhinho poeta prepare o seu ser
Que mesmo doente, no veros, eu ganho.
Bater num ancião muitas vezes me acanho
Faz pena de vê-lo num verso tombar
Ouvir seu gemido, me acuda Gilmar,
Dizendo que está ao sabor do oceano...
Se for bem humilde transforme seu plano
Não cante galope na beira do mar.

Aluizio Lopes
Eu sempre estive só na defensiva
Faço versos simples, banhando à lisura,
Pois sempre me posto com certa postura
Mas sou vigilante a qualquer ofensiva.
Sou cachoeira de rima a rimar
Sou o pescador que sabe pescar
Quando jogo a isca o besta engole
Poeta pequeno não mais me amole
Me escute de longe, na beira do mar.

Gilmar Leite
Meu verso tem cadência, possui compasso,
Tem métrica, tem som, tem plena harmonia,
Tem lagos, florestas, auroras, amagia,
Crepúsculos, fontes, montanha, abraço,
Carinhos sutis que não sentem cançaso
Belezas reais de poder cavalgar...
Seu verso faz pena de nele trilhar
É vago, vazio, não possui melodia,
Galego, talvez, você possa algum diz
Fazer um galope que agrade a Gilmar.
Aluizio Lopes
Se me atacar você tem prejuízo
Lhe tiro a saúde, começo do pé,
Lhe causo frieira, fungos e chulé,
Artrite, joanete, tudo que é preciso,
Lhe dou tendinete, lho roubo o juízo,
Os seus dois joelhos eu vou inflamar
Cãimbras nas pernas também vou causar
Um par de ínguas nas suas virilhas
Lhe causarei dor nas duas pantorrilhas
Nunca mais você anda na beira do mar.

Gilmar Leite
Poeta pequeno de rítmo maluco
Que quebra a cadência me causa uma ânsia
Perdi toda a minha sutil tolerância
Só resta usar o meu verso trabuco.
Seu canto envergonha o meu Pernambuco,
Aleija o compasso, amputa o nadar,
Fazendo o sertão num lamanto chorar
Sujando as águas do meu Pajeú
Poeta eu vou dar uma pisa em tu
Não canta que preste na beira do mar.
Aluizio Lopes
Lhe avisei, melhor pra você,
Não mexer com quem tem rima em fartura,
Lhe dou um cobreiro na sua cintura
Lhe desço a papeira, você vai sofrer,
"Aquilo" se esconde, não pode mais ver,
Tá tudo escondido num blo a inchar,
Você quer remédio, ninguém vai lhe dar,
Não vou permitir ninguém dar remédio,
Porque o poeta vai viver de tédio
Sentindo saudade na beira do mar.
Gilmar Leite
Poeta Galego prepare o seu lombo
Você vai penar nos punhais do meu verso
Cortando em pedaços, deixando em reverso,
Abrindo nas costas um mórbido rombo.
Usando meu verso lhe causo um tombo
Despido você para o povo mangar
Exponho a careca que vive a brilhar
Convido os meninos pra dar beliscão
Na bunda branquela, fazendo arranhão,
Banhando a ferida nas águas do mar.
Aluizio Lopes
Ainda tem mais no "borná" da vida
Muito outras mazelas lhe dou de presente
Sou dor de pontada no pé do seu dente
Garganta inchada, a língua ferida,
Quer pigarrear, mucosa prurida,
Quer soltar o verso, não pode versar,
Me diga colega se pode cantar?
Derramando poeira pra sua alergia,
Desposa o poeta da sua alegria
Nunca mais me afronta na beira do mar.
Gilmar Leite
Por certo és doente, da cama não passa,
Poeta só vive ofertando doença,
Cabeça vazia, vagão que não pensa,
Ancião, coitado, a vista se embaça,
A mente parece uma velha cabaça,
O peito não sabe no verso rimar
Cantor que não sabe na voz ritmar
Só presta ser mudo, calar seu gogó,
O verso sem brilho se mostra cotó
Não canta galope na beira do mar.
Aluizio Lopes
Eu canto de dez, de oite, de sete,
Sextilhas, quadrinhas, se sou açoitado,
Sou um canto "mei malassombrando",
Escrevo soneto Prometeu promete,
Mas se um pé rapado comigo se mete,
Não meço distância pra lhe açoitar
Me valho da voz no improvisar
Lhe dou uma surra sem tocar com um dedo
Ainda revelo meu grande segredo
São inspirações, lá na beira do mar.
Gilmar Leite
Que métrica louca tem seu pobre verso
Velhinho procure alguém que lhe ajude
Perdi minha calma, fiz tudo que pude,
Dizendo a você que cadência é universo
Ao ler seu galope se vê tudo imerso
O rítmo, harmonia, o bom cavalgar,
Cavalo perneta que não sabe andar
Bengala, talvez, pro poeta pequeno,
Que morre afogado no pouco sereno
Não pode enfrentar o oceano Gilmar.
Aluizio Lopes
Esse belo tema que estamos cantando
Desmerecer faz a boba peleja
Quando é meio dia o sol lhe dardeja
A lâmina verde se vai esquentando
A fuana do mar no morno nadando
Pois tem até peixes que amam o luar
Pequenas agulhas no seu agulhar
Costuram o mar no pano do vento
O pescador usa a luz muito atento
Pescando os peixinhos na beira do mar.

Gilmar Leite
Bater em você com meu verso feroz
Me deixa bastante feliz e contente
Não sou pra você um poeta clemente
Confesso lhe bato porque sou algoz.
Arranco do peito a decrépita voz
Afônico, não vai, poder imitar,
Cantor que não sabe na voz galopar
Empurro sem pena no abismo profundo
Poeta pequeno procure outro mundo
Se faste ligeiro da beira do mar.
Aluizio Lopes
Esse tem está ficando sem graça
Não lhe agravei nos particulares
Sinais de feição eu deixo nos ares
Sou um cantador, sou uma boa praça,
Aqui não falei de cor, nem de raça,
Se for pra falar de "formoso" não dá,
De "persona" amigo não é bom falar,
Beleza e candura tem Neide e Rachel,
Aqui um cantor, lá um menestrel,
Dois velhos amigos na beira do mar.

Gilmar Leite
Rachel é sereia que habita meus mares
Enfrenta comigo qualquer oceano
Navega nas ondas do amor soberano
Cruzando as procelas e vários lugares
Nereida que tem belíssimos cantares
Que enfeita as areias do meu caminhar
A ninfa profunda que faz navegar
O barco gigante de eternos desejos
Que ancora nos lábios os dúlcidos beijos
Fazendo amores na beira do mar

Aluizio Lopes
Cavalgo nas águas do meu pensamento
Procuro alento na inspiração
No tropel de rima, do meu alazão,
Corto pradarias com a força do vento;
Deus é que me guia, ele é meu sustento,
Se é meu sustento não vou fraquejar,
Não conheço nada que possa imitar
O Deus que criou toda criação
Agora amigo lhe peço perdão
Nos dez de galope na beira do mar.
Gilmar Leite
Na beira do mar tem imensos coqueiros
Siris que namoram em grutas pequenas
Passeios sutis de fogosas morenas
Cantares de vidas de velhos barqueiros.
Amores fulgazes de mil jangadeiros
Cadência das ondas num lindo bailar
Só falta o amigo saber cavalgar
Nos doces balanços da bela harmonia
Andando comigo, talvez, faça um dia,
Um belo galope na beira do mar.



domingo, 24 de maio de 2009

RIO PAJEÚ
Poema Épico

Grande rio de mágico mistério,
Correnteza imortal da inspiração,
O reinado sublime do Sertão,
Onde o canto é levado muito a sério.
Cada verso demonstra nobre império
Onde o vate governa soberano;
Expressando o cantar parnasiano
Numa enchente de verve cristalina,
Que em cascatas vem da mente divina
Para encher de ternura o peito humano.

És nascente do audaz Rogaciano
Defensor voraz dos trabalhadores;
Teu jardim resplandece lindas flores
Que “Cancão’’ plantou com amor arcano.
Foi Marinho o primeiro mestre ufano
Que subiu o estandarte da poesia.
Job Patriota lirismo em fantasia,
Lourival trocadilho inusitado,
Grandes mentes dum sol iluminado
Onde a verve com brilhos extasia.

És vertente que tem filosofia
Através do erudito Bio Crisanto,
Um filósofo que ao invés do pranto
Derramava correntes de alegria.
Quem passava na humilde moradia
Via o exemplo fiel da evolução,
Dum filósofo sem locomoção
Dando passos com sábios pensamentos,
Expressando sublimes sentimentos
Sobre as trilhas dum puro coração.

Nascedouro imortal da criação
És a fonte dos grandes repentistas,
Cachoeira dos “três irmãos Batistas”,
Valdir Teles veloz como um tufão,
Zezé Lulu cantou todo o Sertão,
Zé Catôta na glosa é imensurável,
Ismael repentista admirável,
E João Campos corrente cristalina,
O fulgor de Antônio de Catarina,
O “baú” de um Dedé inesgotável.

Pajeú, teu poema é memorável!
Mestre Aleixo revela com carinho,
Nos mostrando com luz o teu caminho
Num saber de grandeza inexorável.
A família Rabelo inquestionável
É um marco do reino encantado;
O saber desse povo coroado
Tem no trono o valor da poesia,
Declamada e escrita com magia
Construindo com versos teu legado.

Cada vate é um rei admirado,
Que governa através do coração,
Castigando seu povo de emoção
Com o beijo do verso ritmado.
Amorim, um poeta inveterado;
Adalberto, pureza imaginável;
Edinaldo que mostra o admirável;
Lulu Neto e Vinicius Gregório,
Com Arlindo e um “Rocha” tão notório,
São enchentes do verso inesgotável.

São os “Passos”, a fonte interminável,
Numa Grécia coberta de lirismo,
Onde brota o fulgor do romantismo,
De maneira sublime, inigualável.
Quem caminha no teu solo infindável
Sente as flores da mente que extasia;
Duma terra com sendas de poesia
Onde o povo navega o coração,
Na corrente imortal da inspiração
Encantando o viver com fantasia.

Cada córrego brota a melodia
Através do “Caboclo Sonhador”;
Um menino tropeiro cantador
Que nos dedos tem veio de harmonia.
O Zé Dantas compôs com maestria,
Matricó faz canções usando o pinho,
Nas barrancas a neta de Marinho
Faz um canto com toda devoção,
Numa enchente de linda entonação
Com beleza, doçuras e carinho.

Por imenso que seja o pergaminho
Pra falar dos ilustres moradores,
São centenas de músicos e escritores
Dando brilho ao poder do remoinho.
Cada enchente de verso abriu caminho
Para nova e brilhante geração;
São valores de grande criação
Com fulgor, sentimento e beleza,
Aumentando com luz a correnteza
No profundo lençol da inspiração.

Cada artista através da perfeição
Pinta quadros com mágico pincel,
Demonstrando de forma bem fiel
As imagens que vêm do coração.
Os seus traços têm cores do Sertão
Que o poeta “Filó” em versos pinta,
Desenhando de forma bem distinta
A paisagem encantada da poesia,
Num painel de beleza e fantasia
Ilustrado por uma oculta tinta.

A grandeza jamais será extinta
Na planície fiel da inspiração,
Porque existe um perene coração
Escorrendo uma verve que não finta.
Quem bebê-lo é difícil que não sinta
O sabor delicado dos sentidos,
Onde a fonte cristal dos tempos idos
Continua jorrando o sentimento,
Recebendo o parnaso “Nascimento”
Através dos sonetos construídos.

Teu jardim tem canteiros coloridos
Onde as flores liberam sua essência,
Perfumando com lírica fluência
Os recantos sublimes dos sentidos.
Colibris multicores destemidos
Bebem o néctar límpido das flores
Dando vôos delicados nos verdores;
E as sutis e pequenas borboletas
Num balé demonstram mil piruetas
Enfeitando o painel dos esplendores.

Quando a tarde desmaia, os temores
Tomam conta do homem sertanejo
E o mistério da noite dá seu beijo
Sobre a face temível dos pavores;
Uma rã solta seus gritos de dores,
Enlaçada por rápida serpente;
Outros bichos despertam do latente
Pra saírem na negra escuridão,
Na rotina infalível do Sertão,
Assombrando o viver de muita gente.

Quando chega a época da enchente
Os meninos derrotam seus auspícios;
Sem temerem profundos precipícios,
Dão mergulhos vencendo a corrente.
A jurema com espinho contundente
É levada num grande arrastão;
Velhos troncos tirados do seu chão,
São caronas pra toda meninada,
Parecendo uma rápida jangada
Entre as águas fluídas do grotão.

Tuas águas banharam Lampião,
Cangaceiro de força destemida,
Que passou quase toda a sua vida
Enfrentando os soldados da nação.
Para muitos foi líder do Sertão,
Que assombrou fazendeiros poderosos;
Enfrentou secas, tempos invernosos,
Desbravou mil caatingas com coragem;
Nas ribeiras dormiu fez a passagem
Comandando seus cabras corajosos.

É nos tempos de invernos caudalosos
Que o teu veio aumenta ferozmente,
Numa fúria veloz onde a corrente
Tem a força dos tigres poderosos.
Os remansos com giros revoltosos
Movimentam as águas vermelhadas,
As lagoas são todas inundadas
Pelas fortes vazantes das ribeiras,
Renascendo pequenas corredeiras
Das planícies que foram alagadas.

Quando seco, visões mal assombradas
Formam cenas tristonhas de pavor;
O sofrer do Sertão sente o fervor
Numa dor de tristezas desoladas.
As carcaças das vacas ressecadas
Pelo sol escaldante do verão;
São fantasmas de grande assombração
No painel desolado dos tormentos,
Retratando milhões de sofrimentos
Num semblante de trágica feição.

No passado viveu grande nação
Habitada por tribos de guerreiros,
Que cruzavam com passos bem maneiros
Todo o vale, ribeira e o grotão.
Foram bravos de puro coração
Como prova de um reino encantado;
Qualquer vate que esteja inspirado
Bota flores de versos em tuas sendas
Enfeitando de cantos belas lendas
Da nação do guerreiro delicado.

O presente conquista teu passado
O futuro tem flores de esperança;
Até mesmo da mente da criança
Surge o pólen dum verso improvisado.
Sobre a margem o vaqueiro encourado
Solta a voz qual poetas soberanos;
Lindos pássaros com cantos arcanos
Improvisam nos velhos arvoredos;
Nos casebres das margens, mil segredos
São histórias de menestréis ufanos.

És passagem dos nômades ciganos,
Retirantes das secas infernais,
Que procuram lugares invernais
Pra salvar o seu povo de mil danos.
Foste palco de embates desumanos
Na tragédia selvagem do passado;
Sobre “Pedra Bonita*” está marcado
Cada traço de sangue do inocente,
Que, iludido, morreu sonhando crente
Nas promessas dum “Reino Encantado”.

Pajeú, quando vejo teu reinado
Expressar menestréis encantadores,
São as pétalas fúlgidas das flores
No jardim do lirismo improvisado.
Cada artista desvenda o ocultado
Através do poder da intuição;
Tens nas veias sublime criação,
Na grandeza dos nossos monumentos,
Onde os versos escorrem sentimentos
Duma fonte chamada coração.

E por mais que eu procure inspiração,
Que desenhe teus quadros de beleza,
Fica um córrego minha correnteza,
Comparada com tua imensidão.
Não consigo falar com precisão
Pra mostrar o teu reino encantado,
Já estou com meu peito esgotado,
Minha mente perdeu a consciência,
Chamo um vate que tenha competência
Pra acabar meu poema inacabado.

* O Massacre de Pedra Bonita
A Tragédia da Pedra Bonita, ocorreu num lugar localizado na Serra Formosa, no município de São José do Belmonte, Sertão do Pajeú Pernambuco. Um grupo de fanáticos sebastianistas, liderado por João Antônio dos Santos, fundou uma espécie de reino, com leis e costumes próprios e diferentes dos do resto do país. Seu líder era chamado de rei e usava até coroa feita de cipó. Nas suas pregações ele dizia que o rei Dom Sebastião lhe havia aparecido e lhe mostrara um tesouro escondido; e que o rei estaria prestes a retornar e iria transformar todos os seus seguidores em pessoas ricas, jovens, bonitas e saudáveis. O grande número de pessoas pouco esclarecidas que seguiu os fanáticos de Pedra Bonita preocupou o governo, os fazendeiros e a Igreja Católica. Foi enviado o padre Francisco José Correia de Albuquerque para tentar fazer as pessoas voltarem ao seu lugar. O padre conseguiu convencer João Antônio a parar com a pregação, mas este deixou em seu lugar o cunhado João Ferreira, que se tornou o mais fanático e cruel rei da Pedra Bonita. Ele pregava que Dom Sebastião só voltaria se a Pedra Bonita fosse banhada com sangue de pessoas e animais, comandando um grande massacre de pessoas inocentes em maio de 1838. Entre os dias 14 e 18 morreram 87 pessoas. No dia 18 de maio o arraial da Pedra Bonita foi destruído pelas forças comandadas pelo major Manoel Pereira da Silva.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Poeta Zé Catôta





Estão vendo esta velhinha
Toda envolvida num manto,
Com os olhos rasos d’agua,
Tomando banho em seu pranto?
Cantava quando eu chorava,
Hoje chora quando eu canto!
Zé Catota


Zé Catôta partiu deixando a flor
Sobre a forma singela da poesia


Glosador da orquídea da saudade
Que exalava um poético perfume,
O seu verso Luzia um vaga-lume
Nos tocando com dócil claridade.
No seu canto brilhava a liberdade
Das abelhas brincando com magia;
Seu repente foi linda fantasia
Nos plantando a semente do amor,
Zé Catôta partiu deixando a flor
Sobre a forma singela da poesia.

Foi poeta, um bardo peregrino,
Da pureza na lírica essência,
A cantiga foi mágica existência,
Como o córrego belo e cristalino.
O seu verso mostrava o tom divino
Das floradas brilhando de alegria;
No repente escorria a melodia,
E na voz, revelava o seu fulgor;
Zé Catôta partiu deixando a flor
Sobre a forma singela da poesia.

Muitas vezes ouviu o acalanto
Entoado na voz da mãe singela,
E dormia ao som da canção bela,
Deitadinho, no plácido recanto.
Depois viu o crepúsculo do pranto,
Na montanha da mãe que padecia;
Ofertou o seu canto de harmonia
Onde o verso enterrou a triste dor;
Zé Catôta partiu deixando a flor
Sobre a forma singela da poesia.

Pajeú, hoje sofre de tristeza,
Pela perda do mestre do repente,
Cada flor, cada pedra inda sente,
Lindos versos beijando a correnteza.
O seu canto mostrava a profundeza
Quando a alma do peito extasia;
Cantador que exalava a sinfonia;
Um tenor sabiá, ao sol se pôr,
Zé Catôta partiu deixando a flor
Sobre a forma singela da poesia.