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sexta-feira, 3 de junho de 2011


     A VERGONHA QUE NÃO TENHO DE SER NORDESTINA

                                                                  Sheila Raposo - Jornalista

Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, o meu orgulho de pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.
Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri Paraibano, correndo de boi brabo, brincando com boneca de pano, comendo goiaba do pé e despertando com o primeiro canto do galo para; ainda com os olhos tapados de remela, desabar pro curral e esperar pacientemente, o vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das tetas da vaca para o meu bucho.
Sou nordestina. Falo oxente, vote, e danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria-José! Proseio mi, a língua ligeira, que engole silabas e atropela a ortoépia das palavras. O meu falar é o mais fiel retrato. Os amigos acham até engraçado e dizem sempre que eu “saí do mato, mas o mato não saiu de mim”. Não saiu mesmo! E olhe: acho que não vai sair é nunca”!
Sou nordestina. Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta, atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira, feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma ruma de comida boa, daquela que quando a gente termina de engolir o suor já está pingando nos quatro cantos. E depois ainda me sirvo de um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra adoçar a língua. E no outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de mandioca, na tigela de umbuzada, na orêa de pau com café torrado em casa!
Sou nordestina. Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no teatro de minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e a indignação com que ele costurava as suas cantigas e que também são minhas. Também estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos, pois foi em sua obra que se firmou a minha identidade cultural.
Sou nordestina. Me emociono quando assisto a uma procissão e observo aqueles rostos sofridos, curtidos de sol do meu povo. Tudo é belo neste ritual. A ladainha, o cheiro de incenso. Os pés descalços, o véu sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala.
Sou nordestina. Gosto de me lascar numa farra boa, ao som de xote ou do baião. Sacolejo e me pergunto: pra quê mais instrumento nesse grupo além da sanfona, do triangulo e da zabumba? No máximo, um pandeiro ou uma rabeca. Mas dançar ao som desse trio é bom demais. E fico nesse relabucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço se quebrando e os pés se queimando em brasa. Ô negocio bom!
Sou nordestina. Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do pastoril, com a pegada forte do côco-de-roda, com a alegria da quadrilha junina. O artista nordestino é um herói, e nos cordéis do tempo se registra a sua história.
Sou nordestina. E não existe música mais bonita para meus ouvidos do que a tocada por São Pedro, quando ele se invoca e mete a mãozona nas zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do matuto. A chuva é bendita.
Sou nordestina. Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura, pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Sou não sou apaixonada por uma pequena parcela dessa mesma gente que se enche de poderes e promete resolver os problemas de seu povo, mentindo, enganando, ludribiando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo os próprios bolsos de dinheiro.
Mas, apesar de tudo, eu ainda sou nordestina, e tenho orgulho disso. Não me envergonho da minha história, não disfarço o meu sotaque, não escondo as minhas origens. Eu sou tudo o que escrevi, sou a dor e a alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos que vejo por aí, imitando chiados e fechando vogais, envergonhados de sua nordestinidade. Para eles, ofereço estas linhas.

         Identidade Cultural

Quem não sente da terra seus fulgores
Nem percebe a cultura do lugar
E perdido, só vive a procurar,
Um lugar que tem outros esplendores.
Não conhece seu corpo de valores
Desconhece o sentido de onde mora
E copia a cultura do de fora
Esquecendo os valores do seu chão
Sendo apenas carbono imitação
Onde o traço vazio, pouco demora.

Quem não sente o pulsar da sua terra
Espargindo do povo lindas cores
Vive alheio num mundo sem sabores
Só provando um sentido que se encerra.
Seu lugar não se mostra como a serra
Mostra apenas um monte pequenino
Não enxerga o sentir bem cristalino
Que da terra revela o sentimento
Da cultura que serve de alimento
Como o brilho do riso do menino.

Quem não sente no peito a desventura
Dos que vivem no chão dos oprimidos
Quem não pulsa no corpo os sentidos
Da alegria do povo na ventura;
Desconhece da vida a arquitetura
Construída no solo do sensível;
Seu lugar no seu peito é invisível
Sem sabores, sem cheiros e sem cores,
Numa inércia dum corpo sem valores
Dum opaco mundo imperceptível.

É preciso sentir a cor do chão
Perceber o aroma do lugar
Os sabores da terra degustar
Através da cultura como ação.
Ter no peito pulsando o coração
Sobre o palco sensível da verdade
Revelar o poder da identidade
Numa dança brotada com vigor
Demonstrando seu corpo de valor
Sobre o campo da linda liberdade.

segunda-feira, 9 de maio de 2011



             Visão do Coração


Na dureza da rocha vejo a flor
E nas noites percebo as auroras
Nos espinhos encontro o tom das floras
E no pranto descubro a luz do amor.

Entre as réstias do riso vejo a dor
Num ocaso de vidas mundo afora,
E percebo o sertão na voz canora
Quando o verso revela o cantador.

Sob a pedra vejo um veio cristalino,
E no mundo, percebo a luz menino,
Espargindo esperança na escuridão.

E nas curvas sem planos do invisível,
Todo dia eu descubro um Ser sensível,
Aumentando a visão do coração.

sexta-feira, 6 de maio de 2011




         Inquietação Poética


Eu sou como um pequeno vaga-lume
Minha luz clareia, mas não orienta,
Meu caminho de versos não sustenta
A incerteza da vida quando assume.

Como o cheiro que se evola do perfume
Meu sentido poético não se assenta,
Cada passo que dou é um Ser que inventa
Uma estrada sem fim, por sobre um gume.

Sempre busco olhar no tom das cores
O sensível tingindo os esplendores
Quando a tarde se deita no crepúsculo.

O que mais me seduz é o encantado!
Mergulhar entre as fendas do ocultado
E buscar a grandeza no minúsculo.


Obs. soneto inspirado a partir da frase “O vaga-lume clareia, mas não orienta” do pernambucano Lourival Holanda

domingo, 1 de maio de 2011



       Cavalgadas de Lembranças

Num cavalo galopei sobre a serra
Um jaguar deu esturros estridentes,
A serpente feroz mostrou seus dentes
Os punhais afiados para a guerra.
A caatinga no peito ainda desterra
As lembranças das grutas tenebrosas,
Os espinhos das plantas venenosas,
As floradas dos pés dos bugaris,
As cantigas das lindas juritis,
Alegrando as auroras invernosas.

Cavalgando veloz pelas campinas
O meu corpo sentia a brisa leve
Eu ficava maneiro como a neve
Dando beijos com dúlcidas neblinas.
No cavalo eu pegava em suas crinas
Agarrado, sentindo a pulsação,
O meu corpo tornava-se sertão
Embrenhado na mata bem fechada
Vez enquanto sentindo uma florada
Penetrando no fundo coração.

As passadas dos cascos do cavalo
Desenhavam o fundo dos caminhos
O meu corpo fugia dos espinhos
Numa dança dos cactos num embalo.
Eu ficava tão fino como um talo
Sobre o dorso do meu lindo alazão,
De chapéu, de perneira e de gibão,
Eu rompia as chapadas mais distantes
Enfrentando rochedos bem cortantes
Sem temer os perigos do grotão.

Eu livrei-me dos troncos das juremas
Dos espinhos em formas de anzóis
E senti das campinas os lençóis
Dos tapetes das gramas em poemas.
Envolvido naqueles mil emblemas
O meu corpo brotou a flor sensível;
Hoje tenho a lembrança inesquecível
No jardim florescente da memória
Que renasce do peito minha história
Onde torno meu mundo mais visível.



                  Imprevisível


Minha poesia não procura as auroras,
Sempre busca da noite o imprevisível,
Mesmo que o seu fulgor seja impossível
Ou que o brilho se acabe em poucas horas.

Quando brotam do peito algumas floras
Que são versos dum mundo invisível,
Eu me perco num Ser perceptível
Que se esvai dos sentidos sem demoras.

Sem saber muito certo sobre mim,
Eu caminho na estrada sem ter fim...
O sensível não me mostra uma meta.

E perdido nas retas da certeza
Me confundo nas curvas da incerteza
Só sentindo, apenas, ser poeta.

sábado, 30 de abril de 2011



            Poéticos Momentos


Entre os ramos floridos do jasmim
Sinto o corpo abraçado na natura;
Cada verso demonstra arquitetura
Da paisagem que brota sobre mim.

Colibris parecendo um querubim
São poemas da máxima ternura,
Que dão beijos com plácida doçura
Onde os tons dos sentidos não têm fim.

Um delírio nas flores do meu peito
Deixa o corpo num estado rarefeito
Na colina do verso em transcendência.

As abelhas dos cantos, no vergel,
Jogam pingos cristais do doce mel
Sobre as pétalas da minha existência.



         Segredos Revelados

 Como os toques das asas delicadas
Das douradas pequenas borboletas
Que sutis se chocam nas violetas
Dando beijos nas sedas perfumadas.

Os meus versos sãos gotas orvalhadas
Que me beijam em leves piruetas
Escorrendo das plácidas gavetas
No latente das grutas encantadas.

Segredado os meus versos são visíveis
Revelando as imagens impossíveis
Pelo mundo real dos meus sentidos.

Como existe um pomar numa semente,
Um poema habita o Eu latente,
Que floresce com tons bem coloridos.

 O soneto abaixo é para Betinho (José Humberto) meu irmão, que nos deixou na flor da idade (30 anos), vítima de um acidente automobilístico, na época em que exercia o cargo de promotor de justiça em Caicó, Rn, no ano de 1985.

              Saudade Fraterna

Hoje o peito transborda de saudade
De Betinho, nas noites de serestas,
Enfeitando o luar com belas festas
Dando acordes sutis, pela cidade.

O instrumento ficou na orfandade
Lamentando o adeus que lhe infesta,
De alguém que de forma bem modesta,
Fez seus tons eclodirem de verdade.

Quantas vezes o som do violão
Entoado com plácida canção
Fez nas almas singelos acalantos.

Os acordes que no meu peito invade
São momentos tristonhos de saudade,
De Betinho vertendo belos cantos.