Pesquisar Este Blog

quinta-feira, 29 de abril de 2010



Cacimba do Riso
                             À Ana Paula Queiroz
A cacimba do teu queixo delicado
Tem as águas serenas da ternura,
Onde brota da fonte doce e pura
O sorriso do teu rosto encantado.

Nela eu vejo um poema encarnado
Se abrindo com plácida candura,
Exalando a essência da brandura
Como o beijo de um colibri dourado.

Cada vez que tu mudas de expressão
Os meus olhos deliram com a visão
Vendo as águas brotando do sorriso.

Nela e vejo a corrente mais divina
Transbordando teu rosto de menina
Onde o belo tem a cor do paraíso.

quarta-feira, 28 de abril de 2010



Oferenda de Afetos
                                       À amiga Petrucia Nóbrega
Ofereço os meus versos delicados
Como afetos da minha alma de poeta,
Pra teu Ser que com brilho arquiteta
Os caminhos por muitos alcançados.

Eu desejo que teus sonhos projetados
Pelo brilho da tua alma inquieta,
Sejam sempre percursos para meta
Onde os passos serão realizados.

Peço a vida que te dê sempre fulgores
Espargindo perfumes de amores
Com sabores que a todos nós invade.

Nessa data que marca o teu rebento
Ofereço o fulgor do sentimento,
Dos meus versos com luzes de humildade.

segunda-feira, 26 de abril de 2010


Leveza de Menina

                                   A doce poetisa Telma Romão

Poetisa... Leveza de menina...
Uma aurora na luz do sentimento,
A poesia na graça do rebento
Se mostrando de forma cristalina.

Generosa, com mágica divina,
Faz da vida um eterno nascimento,
Encantando num plácido momento
Como o sol quando surge na colina.

Tu expressa um jardim de mil ternuras!
Sempre exalam do Ser, essências puras,
E a beleza de luz que aurora traz.

Sempre leve tal qual a brisa mansa,
O teu riso de leve se balança
Entre as plumas do rosto, sempre em paz.

sábado, 24 de abril de 2010



Sentimento Humanista
                                         Ao amigo Walter Pinheiro
Fazer o bem! Ser luz na escuridão!
Levar sempre palavras de amor;
Ofertar o perfume que há na flor
E fazer do caminho o coração.

Procurar construir sempre a união
Com afetos dum doce beija-flor;
Ter carinhos sobre as fendas da dor
Abraçar com as plumas do pavão.

Ofertar as auroras de um sorriso!
Ter no peito manhãs do paraíso,
Se na vida, queremos esperança.

Sendo assim, novo mundo, nova luz,
Em cada canto um riso de Jesus
E na vida o afago da criança.

sexta-feira, 23 de abril de 2010



Pilares do Respeito

O arquiteto que pense construir
Um palácio de gótica beleza
Pro amor ser a nobre realeza
Onde a vida se mostre a florir.
Lembre logo no seu solo erigir,
Um alicerce com plácido valor
Onde a ética seja o construtor
Elevando a parede do seu peito
Os pilares sagrados do respeito
São as bases sublimes para o amor.

Lembre bem de fazer da moradia
Um lugar onde a vida não padece
Respeitar é o bem que sempre cresce
Como o sol quando surge a cada dia.
Um projeto de grande maestria
Onde o vida é o nobre morador
Necessita de zelo e de fulgor,
Onde o quarto do amor seja perfeito
Os pilares sagrados do respeito
São as bases sublimes para o amor.

Cada par de areia que é jogada
Para erguer o palácio dos amantes
Tem que ter o fulgor dos diamantes
No colar da moral iluminada.
Na parede será bem desenhada
O altruísmo com um riso doador;
Cada canto vai ser acolhedor
Onde a vida terá um doce leito,
Os pilares sagrados do respeito
São as bases sublimes para o amor.

quinta-feira, 22 de abril de 2010


Coerência... Justiça...Verdade

Quando a flor do bem mostra a virtude
Exalando da vida o seu perfume
Sobre a mente fulgura um lindo lume
Com reflexos que mudam a atitude.
A clareza do amor na infinitude
Fertiliza os jardins da liberdade
Onde as águas da paz e da bondade
Soltam pingos de vida com essência
A justiça, a virtude e a consciência
São os lírios nos campos da verdade.

Belas flores mostrando gentilezas
Transformando palavras em atitudes
Seus olores alcançam plenitudes
Perfumando com mil delicadezas.
O seu pólen procura as correntezas
Pra plantar o bem com profundidade
Germinando a futura humanidade
Onde o amor seja o fruto da existência
A justiça, a virtude e a consciência
São os lírios nos campos da verdade.

Sobre o cálice da flor mais perfumada
A justiça mostrará o seu valor
Onde a luz do poder será o amor
Sobre a haste da lei equilibrada.
A virtude será disseminada,
Sobre os campos da fértil probidade
Cada ação buscará fecundidade
Sobre o solo onde exista coerência
A justiça, a virtude e a consciência
São os lírios nos campos da verdade.

quarta-feira, 21 de abril de 2010



Coração Livre


Meu coração jamais será acorrentado
Como um recluso na perpétua prisão,
Sofrendo o tédio da cruel dominação
Sem esperança de um dia ser libertado.

Meu sentimento jamais vai ser algemado
Pela vontade de uma louca obsessão,
Que imagina poder prender meu coração
No calabouço de um viver tão limitado.

Podem fechar-me num confuso labirinto
Que acharei a porta através do que sinto
Porque meu peito me guia com precisão.

Meu coração tem as asas da liberdade
Para voar nos verdes campos da vontade,
Sem temer fortes ventos da desilusão.

sábado, 10 de abril de 2010






A Virtude Plantada Com Carinho

Ao cantador amigo/irmão Antonio Pereira

Adubar o terreno da união
Irrigando as sementes do respeito
Um jardim vai surgir dentro do peito
Florescendo o fulgor do coração.
A semente sutil da comunhão
Vai brotar um roçado de verdade
Cada planta vai ser sinceridade
Afastando o rancor do seu caminho
A virtude plantada com carinho
Faz brotar a semente da bondade.

Cada grão brotará com mais vigor
Florescendo a campina do altruísmo
Acabando o deserto do egoísmo
Na floresta encantada do amor
Cada galho será um doador
Estendendo seus ramos com vontade
Ofertando o florir da liberdade
Como plumas de um delicado ninho
A virtude plantada com carinho
Faz brotar a semente da bondade.

Lindas plantas do solo humanista
Brotarão como sedas delicadas
E serão pro amor grande moradas
Onde a vida brotará da conquista.
A certeza estará na grande lista
Da esperança de luz da humanidade
Cada planta do bem será verdade
Recebendo o afago em burburinho
A virtude plantada com carinho
Faz brotar a semente da bondade.

Jesus Cristo do chão se fará vida
Estendendo seus braços delicados
Onde os sonhos serão ramificados
Pelos galhos da paz enternecida.
A corrente do amor será fluída
Entre as plantas da solidariedade
Onde a luz do respeito logo invade,
Para abrir com amor o seu caminho
A virtude plantada com carinho
Faz brotar a semente da bondade.

terça-feira, 6 de abril de 2010


                     Alma Leve

Como as plácidas plumas do pavão
A minha alma repousa na leveza,
Onde a vida me beija com fineza
Afagando com lã meu coração.

Como os toques suaves da canção
Dos canários com tons de sutileza,
O meu Ser canta com delicadeza
Despertando do peito o coração.

A minha alma na pluma do veludo
Mostra o verso num cálido escudo,
Protegendo meu peito da maldade.

Como o sonho brincante da criança
A minha alma de leve se balança,
Entre os galhos da minha liberdade.

sábado, 3 de abril de 2010



Na Beira do Mar

Dei beijos na brisa do mar cristalino
Toquei no profundo das águas latentes
Senti as sereias com cantos dolentes
Perdidas nas ondas, chorando o destino.
Vi o brilho fulgente do meigo menino
Catando conchinhas num leve buscar
As ondas surgiam num lindo bailar
Deixando as espumas nas alvas areias
Banhando de branco fidalgas sereias
Chorando e cantando na beira do mar.


Na beira do mar vi ostrinhas pequenas
Sutis borboletas com asas de sedas
Beijar o veludo das ondas mais quedas
Trocando caricias nas águas serenas.
O mar demonstrava mil cores amenas
Pintando o horizonte com tons de encantar
O nauta veloz, como um deus do lugar,
Saltava no barco, partia ligeiro,
Sentado no banco do velho veleiro
Olhava os amores na beira do mar.


Crustáceos pequenos saltavam felizes
Em bandos brincavam na beira da praia
Espumas bordadas da cor de cambraia
Mostravam do mar belíssimos matizes
As ondas surgiam em leves deslizes
Tocando nos corpos num doce beijar
Pequenas gaivotas no céu a voar
Num lindo balé enfeitavam o espaço
Pintando de branco, fazendo seu traço,
Deixando mais plácido a beira do mar.

sexta-feira, 26 de março de 2010


Origem Sertaneja

Eu nasci numa tarde de verão,
Num calor escaldante, abrasador,
Minha mãe contorcia-se de dor,
Que subia o pulsar do coração.
A paisagem deserta do Sertão
Revelava um ocaso no momento,
Um crepúsculo vermelho, sangrento,
Parecia que o sol sofria um enfarto,
Minha aurora despertava no quarto,
Pra mostrar toda luz do nascimento.

 
Nasci com cheiro da terra nordestina,
O vigor resistente da braúna,
O cantar afinado da graúna,
A carícia dos ventos, na campina.
Minha escola foi “Dona Severina”,
Sertaneja que tinha a face rude;
Batizaram-me com águas do açude,
O meu pai escolheu o primeiro nome,
Minha mãe nunca fez eu passar fome,
O seu leite foi que me deu saúde.

Eu cresci na caatinga sertaneja,
No chão seco, correndo no cascalho,
Pastorando as ovelhas com chocalho,
Dando passos campestres, na peleja.
Ouvi preces dizendo: “Deus proteja
Pra não ser mais um ano sem inverno”.
O Sertão sem chover é um inferno,
Falta milho e feijão, falece o pasto;
O campônio, ao ver seu roçado gasto,
Sente n’alma um cruel verão interno.

Tomei banhos no Rio Pajeú,
Dei mergulhos nas águas bem barrentas,
Sem temer correntezas violentas
Nem espinhos que há no mandacaru.
Comi pinha, melão, manga e caju;
Na caatinga, fui rápido vaqueiro,
Tangi cabras pra dentro do chiqueiro,
Solfejando, nos lábios, um baião,
Demonstrando um caboclo do Sertão
Que tem cores do povo brasileiro.

Trago, desde a infância, as cantorias,
Ecoando no meu ser com ternura,
Onde mostro a autêntica cultura,
Num lirismo com flores de poesias.
Gonzagão, através das melodias,
Despertou minha nordestinidade,
Revelando a cor da brasilidade,
Num painel cultural que há na arte,
O qual leva, pra toda e qualquer parte,
A grandeza da minha identidade.

domingo, 14 de março de 2010

O poema logo abaixo é dedicado ao amigo Antonio Pereira.
O Cantador/Uirapuru da Amazônia

Meu Canto Uirapuru

O meu canto uirapuru
É suave como a flor
Tem a pétala do amor
O fulgor do riso nu.
Nele mostro o sonho azul
Deixando em silêncio a mata
Com acordes em cascata
Escorrendo dos meus dedos
Mostrando sutis segredos
Num concerto em sonata.


O meu canto igarapé
Com seu brilho cristalino
Tem pureza de menino
A grandeza de um pajé.
Nele mostro a flor mulher
Exalando mil encantos
A floresta com seus cantos
A bravura dos guerreiros
A força dos curandeiros
E os doces acalantos.


O meu canto tem mistério
Do coração da floresta
Cada tom tem uma aresta
Onde o amor é o império.
A beleza eu levo a sério
Na minh’alma enternecida.
Meu cantar tem a partida
Nas águas da esperança
Levando a flor da criança
Na correnteza da vida.

quarta-feira, 3 de março de 2010


Sonho Bucólico

Eu tive um sonho florido
Nas campinas do sertão,
Que tocou meu coração
Deixando-o enternecido.
Vi a flor num estampido
Com o beijo dum colibri,
Fazendo a pétala se abrir
Pra o bico do passarinho,
Levar com terno carinho
Pequenos grãos do porvir.

Eu vi no sonho encantado
As douradas borboletas,
Fazendo mil piruetas
Num balé bem refinado.
Vi um concriz num dobrado
No alto de um umbuzeiro,
No seu cantar seresteiro,
Seduzindo o seu amor,
Fazendo até mesmo a flor,
Dobrar-se ao canto faceiro.


Vi sutis gotas de orvalhos
Descendo dos arvoredos,
Pra caírem nos rochedos
Despedindo-se dos galhos.
Juritis feito agasalhos,
Usavam as plumas do peito,
Pra cobrir com doce jeito
O filho implume desnudo,
Onde a pena era o veludo
Pra o conforto do seu leito.


Vi nas flores perfumadas
As abelhas num vergel,
Procurando o doce mel
Entre as pétalas delicadas.
Sobre as telhas afastadas
Um pequeno rouxinol,
Dizia pra mim que o sol
Vinha escurecer o sonho,
Pra deixar meu ser tristonho
Na súplica dum arrebol.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Convite

Estarei dia 26 desde (fevereiro), às 15:00 hrs, no Setor 5, sala F2, na UFRN, defendendo minha Dissertação de Mestrado intitulada "Corpo e Poesia: para uma educação dos sentidos". No mesmo dia defenderei o meu projeto de Doutorado intitulado "A Experiência Estética na Linguagem Poética". Compareça. Ficarei feliz.
Gilmar Leite
Abraços

terça-feira, 26 de janeiro de 2010





Infância Bucólica

No meu tempo de criança
Eu pastorava as ovelhas
Sentia doce centelhas
Numa aurora de esperança
Era um tempo de bonança
Sobre o rio da fanasia
Onde as águas da magia
Com brilhos de inocência
Fecundava a consciência
Dando beijos de poesia.

Corria nos campos vagos
No meu cavalo-de-pau
Não sabia o que era o mau
Os ventos eram os afagos
Mergulhava em doce lagos
Adorava  as pescarias
Contemplava as calmarias
Numa tarde de arrebol
Vendo falecer o sol
Nas auroras do meus dias.

Subia nas goiabeiras
Buscando frutas maduras
Num tempos de aventuras
Cobertas  de brincadeiras
Para mim as ribanceiras
Era um mundo encantado
Que eu cruzava lado a lado
Pra desvendar os segredos
Andando sobre os lajedos
Ou cruzando o rio a nado.

Era um mundo de pureza
Ao redor dos passarinhos
Sentindo ternos carinhos
Dos beijos da natureza
No peito tinha a certeza
Da vida sem o rancores
Onde sonhos beija-flores
Beijavam com afeição
As pétalas do coração
Sugando puros amores.

sábado, 23 de janeiro de 2010



CAMINHANTE

 Eu caminho nas rochas e nas flores!
Sou um ser de acertos e defeitos;
Tenho em mim alguns velhos preconceitos;
Sou a noite e também os esplendores.

Busco o centro mostrando alguns valores
Que residem nas grutas do meu peito;
Muito sei que não sou um ser perfeito,
E nas noites, procuro os meus fulgores.

Sobre a lâmina da vida eu caminho
Entre as rosas e o mórbidos espinhos,
Vez enquanto caindo para os lados.

Só não paro na estática do nada!
Nas recuo nas estrada bem curvada,
Sigo em frente com meus sonhos alados

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ser tão Sertão

No meu peito, palpita um ser sertão,
De invernadas ou secas causticantes,
Mostra os campos sutis e fulgurantes
E desertos que causam assombração.
Nele pulsa o crepúsculo dum verão,
Ou os fulgores das horas matinais;
Mostra os vales nos tempos invernais,
E revela os cenários de dois mundos,
Onde vivem os dois seres profundos,
Que têm secas ou grandes temporais.

No meu ser, o sertão vive presente,
Através dos costumes do seu povo,
Que resiste ao banal chamado novo
Parecendo um umbuzeiro imponente.
Nele pulsa as violas do repente
Através do improviso num arpejo;
Igualmente um relâmpago em lampejo
Numa chuva de versos que me acalma,
No profundo oculto da minha alma
Onde vive um campônio sertanejo.

No sertão da minha alma resplandece
A florada de um pé de umbuzeiro;
As sementes sutis do marmeleiro
Que a rolinha se alimenta como prece.
O meu ser tão sertão nunca fenece
Os jardins encantados da esperança;
Nele existe a certeza da bonança
Dum roçado com verdes pés de milho,
Onde o pai tem certeza que seu filho
Não irá mais sofrer desesperança.

Quem caminha na trilha do meu ser
Nela encontra o xaxado e o baião,
Na sanfona e na voz de Gonzagão
Onde o canto é a forma de viver.
Um vaqueiro abóia com prazer
No oculto curral da existência,
De um ser sertanejo por essência
Que carrega no peito a sua terra
Desde o vale, a caatinga e a serra,
Dando passos fieis da consciência.

sábado, 5 de dezembro de 2009


Comentário Sobre o Poeta Job Patriota de Lima
--------------------------------------------------------------------------
Tive a felicidade e honra de ter convivido com alguns grandes poetas repentistas que imortalizaram o Velho Rio Pajeú. Nasci no século em que nasceram Cancão, Pinto do Monteiro, Lourival Batista, Rogaciano Leite, Zé Dantas, Luiz Gonzaga, Job Patriota e tantos e tantos mestres da música e da poesia do Brasil de dentro, tão pouco conhecido pelo mundo dos urbanóides, como diz o mestre Elomar Figueira de Melo. Com alguns poetas e compositores, tive a felicidade de conhecer e conviver com eles, como é o caso de Zé Marcolino, Lourival Batista e Job Patriota, Cancão, e outros tantos. Entre todos eles, foi Job Patriota o que mais deixou luz de poesia e rastros de apoio e carinho para os poetas, como eu, surgiram após a geração dos poetas e compositores citados. Job Patriota, para os poucos que não conviveram com ele, e o "Rei do Lirismo" e da inocência, para quem como eu, teve a felicidade de passar noites e mais noites ouvindo-o a luz do luar, envolvido pelos devaneios boêmios, em que o mestre Job declamava ou glosando a luz da lua sertaneja. O poeta menino, foi para minha geração o grande vate que respirou poesia até na hora crespuscular da sua existência.
Fazer poesia, é uma coisa; viver a poesia é outra coisa totalmente diferente. Job Patriota dormia e acordava a luz da poesia. Não sabia e não vivia outra coisa, se não fosse o mundo da poesia. Emotivo, notívago, sentimental, lírico, inquieto, bucólico, nostálgico, fervilhante de poesia, estesiado pela estética do verso, contaminado pela sinergia do viver poético, Job Patriota, respirava poesia todas as horas do dia. Foram várias vezes que ao me encontrar com ele, o poeta já ia logo dizendo: "Poeta, vamos para algum canto, para eu dizer ou declamar alguma poesia. Ela está borbolhando dentro de mim, querendo explodir, e se eu não a libertá-la, enlouqueço". Ouvi Job dizer muitas vezes isso, e quando iamos para um lugar reservado, ele começava declamar, todo excitado, a pele vermelha e os olhos lacrimejando. Foi onde eu vi a poesia viva, muito além da escrita. Aqui deixo alguns versos do seu classissimo.
Saindo do hospital, onde foi internado por causa do álcool etílico Job Patriota disse:
-----------------------------------
A dor de mim se aproxima
Eu pra não perder a calma
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma.
------------------------------------
O Poeta Bucólico do Pajeú Cancão certa vez pediu a Job Patriota para falar dos desenganos da velhice, veja que soneto clássico Job fez.
-----------------
DESILUSÃO
-----------------
Sonhos, quimeras, ilusões, amores;
Tudo tive a minha mocidade,
Mas o tempo na sua tempestade,
Faz dos dias como faz comas flores.
II
Fiz das horas os meus elevadores
Pra subir a montanha da idade,
De cujo cimo fitando a mocidade
Eu pensava viver como os condores.
III
Nessa triste ascensão de amargas horas,
Vi somente crepúsculos ao invéis de auroras
E à velhice cheguei aos solavancos.
IV
Nem mais vestigios das primeiras cenas,
Por herança de tudo herdei, apenas
Brancas coroas de cabelos brancos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


PRESENÇA DO PERFUME

Quando a mão com sutil delicadeza
Solta pingos de água num jardim
Cada pétala se abre dum jasmim
Num sorriso com dúlcida pureza.
Uma essência se exala com leveza
Dando beijos na mão com seu olor
Perfumando com plácido fulgor
Numa oferta divina do seu lume
"Sempre fica a presença do perfume
Entre os dedos da mão que rega a flor".

Cada dedo oferece os orvalhos
Derramados do céu da sua mão
E a flor faz surgir do coração
O presente divino dos seus galhos.
Colibris fazem vôos com atalhos
Numa pressa coberta de temor
Como lindos parceiros do amor
Beijam flores morrendo de ciúme
"Sempre fica a presença do perfume
Entre os dedos da mão que rega a flor".

A presença dos pingos cristalinos
Derramados da mão como presente
Faz a flor se abrir toda contente
Igualmente o sorriso dos meninos.
Do seu corpo surgem olores finos
Com mil beijos dum grande sedutor
Infiltrando-se nos dedos com ardor
Sem ouvir beija-flores com queixume
"Sempre fica a presença do perfume
Entre os dedos da mão que rega a flor".

Eu comparo a grandeza da verdade
Praticada através da ação humana
Quando a mão da virtude soberana
Joga os pingos divinos da bondade.
Sobre o campo da vida o amor invade
Com essências tocando o regador
Perfumando o seu gesto doador,
Onde Deus no seu peito logo assume
"Sempre fica a presença do perfume
Entre os dedos da mão que rega a flor".

Ps: Mote do poeta Xico Borges


quinta-feira, 26 de novembro de 2009


O poema abaixo foi publicado na antologia poética "Retratos do Sertão", organizada pelo Poeta Marcos Passos
--------------------------------------------------------------------
--------------------------------------------------------------------
DOIS SERTÕES
---------------------

O Sertão é cruel e violento,
Mas também, é profundamente humano,
Quando seco, é macabro e desumano,
Quando verde, produz contentamento.
Tem miséria e também tem alimento,
Paradoxo de risos e de prantos;
Desencanta e demonstra mil encantos,
Revelando cenários de dois mundos
Um lugar de mistérios bem profundos,
Cada qual envolvido nos seus mantos.

Quando seco, os troncos contorcidos,
Das juremas com galhos ressecados,
Se parecem com corpos condenados
De famintos soltando mil gemidos.
Secos ramos são braços estendidos,
De fantasmas pedindo um alimento;
Num deserto de fome e de tormento,
Assustando quem passa no recinto,
Onde a vida é um fel feito absinto,
Amargando num triste sofrimento.

Se chover, tudo muda, velozmente:
Os fantasmas das árvores peladas
Vestem roupas de cores variadas,
Acabando o macabro ambiente.
O campônio vai pra roça contente,
Carregando no peito a esperança;
A mulher toma conta da criança
Tocaiando as panelas no fogão,
Na certeza de ter milho e feijão
Pra acabar sua fome, com bonança.

O deserto que, antes existia,
Com espinhos e serpes venenosas,
Dá lugar a paisagens primorosas,
Parecendo uma outra moradia.
Na campina aparece a sinfonia,
Duma orquestra de pássaros cantantes;
Borboletas, em ritmos dançantes,
Num balé, fazem mil vôos delicados;
Os sutis colibris, bem refinados,
Beijam flores, iguais a dois amantes.

Na vazante que estava ressecada,
A lagoa transborda na enchente;
Um tetéu solta seu canto contente
Num cantar que anima a passarada.
Sobre a terra que estava calcinada
Surge um córrego, puro e cristalino,
Dando beijo num grão bem pequenino,
Para em breve virar uma planta em flor,
Colorida e exalando um doce olor
Através de um perfume tão divino.

Sobre os galhos frondosos da aroeira,
Que na seca a visita era o sol quente
Quando chove, recebe alegremente,
Cada espécie de ave trepadeira.
Um tenor sabiá de voz brejeira
Solta um canto, coberto de esperança,
O qual mostra uma era de bonança
Diferente da época passada,
Quando quase morreu a passarada
Nos espinhos da vil desesperança.

O esquálido rio que estava morto
Ressuscita seu leito quando chove
O campônio no peito se comove
Que desperta a alma num conforto.
Fica olhando às águas, absorto,
Contemplando a mudança da paisagem
Onde antes só tinha a seca imagem
Vê o rio caudaloso com primores
Desenhando na tela mil fulgores
Onde o verde demonstra a mensagem.

O complexo sertão mostra dois mundos
Os quais são totalmente diferentes,
Com imagens e vidas oponentes
De heróis, que também são moribundos.
Os seus vales são ricos e fecundos;
Basta à chuva cair freqüentemente,
Que do chão brotará uma semente
Demonstrando um sinal de esperança,
Igualmente o sorriso da criança
Que verdeja o sertão que há na gente.

terça-feira, 17 de novembro de 2009


Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece


De manhã caminhando na campina
Entre as flores silvestres do sertão,
Despertou no meu ser uma visão
Vendo o pranto caindo em ondina.
A tristeza da flor bem pequenina
Era a cena da vida que padece;
Parecia um alguém fazendo prece
Com temor dos castigos mais ferinos,
Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece.

Suas pétalas tristonhas, sem ter água,
Se desfez dos belíssimos fulgores,
Cada pingo dos olhos eram as cores,
Se apagando no pé da triste mágoa.
A tristeza voraz causava frágua
Como alguém que, maldoso, lhe dissesse:
Hoje a vida pra você arrefece,
Só lhe resta o mais triste dos destinos,
Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece.

Borboletas voavam pelos campos
Assustadas faziam vira-volta;
A tristeza da flor dava revolta
Até mesmo aos calmos pirilampos.
Ela só tinha a frente os escampos
Onde a vida perdura e esmorece,
No deserto da angústia que entristece
A beleza que tem seus toques finos;
Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece

Até mesmo um pequeno beija-flor
Que voava em busca de uma essência,
Fez um pouso com lírica cadência
Vendo a flor com tristeza, sentiu dor.
Procurou com seu bico dar amor
Lhe beijando e dizendo a vida cresce;
Não se curve, que a dor desaparece,
Tenha fé nos poderes mais divinos,
Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Maciel Melo: Eterno "Caboclo Sonhador"
-------------------------------------------------------

Breve Comentário Sobre O Caboclo Sonhador Maciel Melo
------------------------------------------------------------------------------

Desde o distante trilhar, no “Desafio das Léguas”, que o “Caboclo Sonhador” Maciel Melo vem montado no seu cavalo de versos e canções, rompendo a caatinga da anti-cultura, em busca de mostrar seus cantos e cantigas, dizendo “Sim e não a Reis e Rainhas”, e entoando a voz “Que Nem Vem-Vem” para os quatros cantos do Brasil.
Violeiro de primeira linha e portador de uma voz belíssima, o cantador pajeusense da poética princesa Iguaraci, louva “O veio d’água do Rio Pajeú”, o lendário feiticeiro da poesia e dos cantos, quando junto com seu violão universaliza a sua aldeia através de uma poética telúrica e comprometida com as raízes profundas da identidade sertaneja. Com o “Coração tão Sertanejo”, Maciel Melo vem abrindo “Alas para um novo Cantador” e nos mostrando através do seu canto universal a grandeza de um povo que não ficou tão órfão com a partida do “Rei do Baião”. O “Caboclo Sonhador” Maciel Melo trilha muito bem sobre as diversas formas de compor e cantar o Sertão nordestino. No seu trabalho encontramos o que se chama de erudito, de toada, de cantiga ou de herança trovadoresca, onde sua voz e seu violão de forma plangente ou não, nos mostra o Sertão com profundidade melódica e poética, onde “A barra-do-dia-a-dia” mostra a aurora de um cantador que tanto canta a dor crepuscular da vida sertaneja, como canta as auroras do Sertão na sua forma mais bela e encantadora. O cantador/menino que tem veios d’água do rio Pajeú nos seus dedos e coração sertanejo criou de forma muito peculiar o jeito de tocar o baião no violão, inventando uma batida inovadora, como fez João Gilberto através da Bossa Nova. Além de ser um trovador/erudito, o cantador do Pajeú é um dos maiores cantores e compositores no universo do Baião, Xote e demais ritmos da música que imortalizou o saudoso Luiz Gonzaga.
Ouvir as melodias telúricas do “Caboclo Sonhador” Maciel Melo nos remete as noites de São João, quando as “Damas de Ouro”, com seus vestidos de chita, multicores, enfeitavam as festas juninas, repletas de candura e inocência sertaneja. Caminhar “Na poeira e na estrada” dos xotes do cantador de Iguaraci é possível encontrar o amigo/cantador jogando luzes na escuridão das almas aflitas pelo mundo do desamor. Ao penetrar no profundo “Coração tão Sertanejo” da tropeiro/cantador percebe-se as “Marias da Labuta” do imenso mosaico/humano sertanejo, que como o "umbuzeiro elomariano", resiste às enchentes das dificuldades da vida, para cuidar da prole e do árduo trabalho camponês. A música de Maciel Melo é um trato puro e fino para falar do povo da sua aldeia sertaneja, que como os povos do mundo inteiro, sofrem as mesmas vicissitudes e alegrias dos que habitam o planeta terra. O Vate do Pajeú não inventa música, ele se faz cronista e cantador peregrino com sua viola e um “Coração tão Sertanejo”, sempre levando seus cantos e versos, “desfilando nas avenidas” do mundo, “num Forrofiado tão da bexiga de bom”.
Gilmar Leite
----------------
Caboclo Sonhador
-------------------------
Música e letra de Maciel Melo
------------------------------
Sou um caboclo sonhador
Meu senhor, viu
Não queira mudar meu verso
Se é assim não tem conversa
Meu regresso para o brejo
Diminui a minha reza
Coração tão sertanejo
Vejam como anda plangente o meu olhar
Mergulhado nos becos do meu passado
Perdido no imensidão desse lugar
Ao lembrar-me das bravuras de neném
Perguntar-me a todo instante por Bahia
Mega e Quinha, como vão, tá tudo bem ?
Meu canto é tanto, quanta canta o sabiá
Sou devoto de padim Ciço Romão
Sou tiete do nosso rei do cangaço
Em meu regaço, fulminado em pensamentos
Em meu rebento, sedento eu quero chegar
Deixem que eu cante cantigo de ninar
Abram alas para um novo cantador
Deixem meu verso passar no avenida
Num forrofiado tão da bexiga de bom.

sábado, 7 de novembro de 2009



SER TÃO SERTÃO

No meu peito, palpita um ser sertão,
De invernadas ou secas causticantes,
Mostra os campos sutis e fulgurantes
E desertos que causam assombração.
Nele pulsa o crepúsculo dum verão,
Ou os fulgores das horas matinais;
Mostra os vales nos tempos invernais,
E revela os cenários de dois mundos,
Onde vivem os dois seres profundos,
Que têm secas ou grandes temporais.

No meu ser, o sertão vive presente,
Através dos costumes do seu povo,
Que resiste ao banal chamado novo
Parecendo um umbuzeiro imponente.
Nele pulsa as violas do repente
Através do improviso num arpejo;
Igualmente um relâmpago em lampejo
Numa chuva de versos que me acalma,
No profundo oculto da minha alma
Onde vive um campônio sertanejo.

No sertão da minha alma resplandece
A florada de um pé de umbuzeiro;
As sementes sutis do marmeleiro
Que a rolinha se alimenta como prece.
O meu ser tão sertão nunca fenece
Os jardins encantados da esperança;
Nele existe a certeza da bonança
Dum roçado com verdes pés de milho,
Onde o pai tem certeza que seu filho
Não irá mais sofrer desesperança.

Quem caminha na trilha do meu ser
Nela encontra o xaxado e o baião,
Na sanfona e na voz de Gonzagão
Onde o canto é a forma de viver.
Um vaqueiro abóia com prazer
No oculto curral da existência,
De um ser sertanejo por essência
Que carrega no peito a sua terra
Desde o vale, a caatinga e a serra,
Dando passos fieis da consciência.

No meu peito se encontra a ladainha
Das beatas rezando em procissão;
Mostra a fé do campônio do sertão
Enfrentando um viver que lhe espinha.
Canta dentro de mim uma rolinha
Num crepúsculo da tarde sertaneja;
Tem o som do caboclo na peleja
Conduzindo a boiada em passo lento,
Aboiando do peito um sentimento
Sob o sol causticante que dardeja.

Dentro de mim ecoa um dialeto
De palavras do homem camponês,
Que não fala o urbano português;
O dizer e entender pra ele é correto.
Na minh’alma carrego humilde teto
Das casinhas de taipa do sertão,
Que só tem na parede a devoção
Sobre a forma singela dum retrato,
De Jesus padecendo no maltrato
Como a forma cristã da redenção.

O meu sangue possui o puro cheiro
Das essências da flor duma jurema
O cantar da afinada seriema
Sob a sombra dum verde juazeiro.
Eu carrego na minha’alma um vaqueiro
Nas juremas fazendo vaquejadas,
Argolinhas, São João e cavalhadas,
Cantorias, folguedo, apartação,
A novena, promessa e procissão,
Tradições, que estão enraizadas.

O sertão não é só parte da terra
Ele está no profundo do meu ser
Pra senti-lo é preciso compreender
Desde o vale, a caatinga e a serra.
A grandeza de sê-lo nunca encerra;
Eu carrego com risos ou com prantos,
Através dos poemas ou dos cantos
Como símbolo da minha identidade,
Onde a flor da cultura é a verdade
Exalando os costumes com encantos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009


Eu tive a feliz oportunidade de conviver com o saudoso poeta Zé Marcolino. O cantador caririense teve seu mundo de maior existência entre o Pajeú pernambucano e o Cariri paraibano, sempre levando o canto e a poesia ao povo de ambas as regiões. Fidalgo, Educado, Amigo, Atencioso e comprometido com o Sertão Nordestino, Marcolino foi o estandarte da música de duas regiões onde verteram os mais famosos cantodores de viola do Nordeste. De voz grave e feições de caboclo sério, Marcolino era a suavidade de um alma bondosa e de uma alegria de menino, sempre presente na sua forma de poeta da terra. Não fez uso "profissional" como cantor, tendo apenas gravado um cd (capa acima) produzido e arranjado pelo "Quinteto Violado". O vate/cantador paraibano alimentou a carreira musical de Luiz Gonzaga com grande clássicos que hoje estão imortalizados no cancioneiro popular, como: Sala de Rebôco, Cacimba Nova, Serrote Agudo, A dança de Nicodemos, Coboclo Nordestino e tantos e tantos outros clássicos identificados na voz do "Rei do Baião" e de demais cantores, cantoras, intérpretes e cantadores do Nordeste e outras regiões do Brasil. Seu instrumento musical era uma caixa de fósforo, tanto para se acompanhar como para compor. O que mais impressionava era o autoditata Marcolino, componto baiões, xotes, rasta-pés, samba de latada, forrós e lindas canções, as quais louvavam desde uma "Pedra de Amolar" até uma professora através da linda metáfora "Rolinha Branca". Escutar Marcolino na sua voz grave, de barítono, ou na grande voz do velho Lula Gonzaga e demais cantores e cantoras nordestinas, nos remete ao Sertão na sua mais pura forma de ser. Nas melodias de Marcolino encontra-se o Sertão alegre nas chuvadas invernosas; na poesia do mestre caririense vê-se uma grande fazenda que outrora foi palco e reino de grandes festas de vaqueijadas; no lirismo de Marcolino percebe-se a figura humana na delicadeza de uma "Rolinha Branca", andando e catando pedrinhas pelo chão; no canto lunar do poeta paraibano, vê-se o "Ciúme da Lua" que o poeta sentiu quando os astronautas pisaram no corpo de bela senhora lunar, senhora esta, inspiração e musa de todos os poetas do mundo; enfim, Marcolino nos deixou um legado de canto e poesia que ecoa pelos quatros cantos do Brasil. Hoje, encontra-se no solo paraibano e pernambucano a comunicação de vários sertanejos que tratam uns aos outros de Poeta. Isso, foi criado pelo nosso saudoso Zé Marcolino. O poema abaixo, de minha autoria, foi adaptado e musicado pelo compositor potiguar Galvão Filho, sobre a forma de uma belo Xote. No ano de 2008 o cantador Santana o gravou no seu cd "Forró - a arte do abraço".
Gilmar Leite



SAUDADE DE MARCOLINO



Marcolino, poeta cantador,
A “Cacimba” secou de tanto pranto
O “Carão” não escuta o teu canto
“Sabiá” padeceu de tanta dor.
O “Ciúme da Lua” se acabou
Hoje vives morando perto dela
Desenhando teu canto numa tela
Seduzindo-a com tua serenata
Despertando seu riso cor de prata
Num desenho de linda aquarela.

O “Serrote Agudo” está tristonho
O “Fura-Barreira já não tem mais casa
“Maribondo” já bateu a sua asa
O “Sertão de Aço” perdeu seu sonho.
Só os vates de cima estão risonhos
O teu canto é a “Saudade Imprudente”
Que machuca o sertão que há na gente
Como o pranto na “Mágoa de um Vaqueiro”
Que tristonho, num banco do terreiro,
Faz aboios saudosos e dolente.

Oh! Poeta “Caboclo Nordestino”
As caboclas “cintura de abelha”
Soltam prantos em forma de centelha
Com saudades do canto campesino.
A “cantiga do vem-vem” pequenino
Sobre os galhos da “Flor do Cumaru”
Faz sentir Cariri e o Pajeú
A saudade das noites de São João
Ou as tardes tristonhas do sertão
Entre os cantos dolentes do nambu.

Hoje já não se faz a mesma dança
“Nicodemos” partiu pra outros cantos
Não se encontram mais os mesmos recantos
Duma “Sala de Reboco” com pujança.
A saudade dos “Tempos de Criança”
A “Rolinha” com passos delicados
Um poeta com sonhos encantados
Numa “Estrada” pisando no destino
Pra partir nos deixando um lindo hino
Através dos seus cantos coroados.

terça-feira, 20 de outubro de 2009


Rogaciano Leite
-------------------
-----------
Breve comentário sobre o poeta Rogaciano Leite
----------------------------------------------------------------

O menestrel cantador do Pajeú Pernambucano foi um aedo que levou através da sua magistral poesia os cantos e encantos da sua aldeia nordestina para vários lugares do Brasil. Poeta de uma inspiração genial e de um conhecimento universal, Rogaciano deu um tratamento nobre a poesia dos cantadores de feiras, das pequenas vilas, povoados e cidades interioranas, lapidando o diamante poético dos homens rústicos do imenso mosaico humano, chamado nordeste brasileiro. Raogaciano foi um poeta repentista de uma capacidade de improviso sobre-humano; arquiteto das palavras e construções poéticas de forma perfeita; poeta de uma visão de mundo ampla; intelectual do mundo do repente e orador que encantava multidões por onde passava; o vate transcendeu em todos os aspectos a poesia em todas as dimensões de existência. Sua poesia lírica nos convida a trilhar nos abismos do amor romântico, lugar repleto de realizações amorosas, de solidões infernais, de angústias pelo abandono e do perdão pelos “que voltam pelo amor vencidos”. Sua poesia bucólica nos traz as mais lindas paisagens do Sertão nordestino, derramando belas imagens “onde o sol desdobra o manto feito de rendas de anil”. Seus versos passeiam pelo Brasil, desde o majestoso Amazonas, com suas florestas e lendas, até as belas praias do “Ceará Selvagem” e do sonho encantado da “Ilha Porchart,” no litoral paulista. Nos seus poemas praieiros e campesinos se encontra um poeta que sentiu a natureza viva nas entranhas do seu corpo sensível e aberto as encantos e desencantos do mundo vivido. O Rio Pajeú esbraveja nos desfiladeiros dos seus versos magistrais e se acalma na lagoa da sua simplicidade de homem sertanejo, que universalizou o “Pajeú das Flores” com beleza e sabedoria. Que o conheceu a luz da poesia diz que Rogaciano parecia um Deus em forma de gente falando através dos versos e fazendo as multidões entrarem em delírio poético. A sua força poética maior, foi em defesa dos oprimidos pelo capitalismo de um regime opressor. Se o bardo baiano Castro Alves foi a voz dos negros escravizados pela estupidez da chamada raça branca, Rogaciano foi a voz, não de uma raça, mas sim, de um povo injustiçado pela falta de assistência dos governos descomprometidos com as causas populares. Seu poema “Acorda Castro Alves” é um gripo profundo e alto, suplicando a vinda do poeta condoreiro para livrar os pobres dos grilhões da miséria social, que ainda reina no Brasil de forma contundente. No poema “Os Flagelados”, parece que Rogaciano estava na retirada degradante dos famintos homens do Sertão, vitimados pelas longas estiagens e pela falta de assistência governamental. Vamos encontrar no poema “Os Trabalhadores” as dores, a fome e o abandono dos homens urbanos, jogados nas sarjetas da miséria o do descaso social. Ao andar com Rogaciano, por entre as choupanas e palafitas das grandes favelas, como “Pirambú, em Fortaleza, nos seus versos, iremos encontrar uma população trespassada de fome e de sofrimento, que nem os malditos do inferno da Dante sofreram tanto. Em cada barraco, iremos encontrar por intermédio de Rogaciano crianças famintas e doentes, jovens jogadas no escuro do descaso social e pais e mães sem esperança para a chegada de novos dias. Vamos trilhar no poema “Os trabalhadores” para que possamos vê pelos olhos do poeta do Pajeú das Flores, os homens sem a luz da esperança, nesse imenso país que fulgura riqueza para tão poucos.
Gilmar Leite
-------------------------------------------------------------------------
OS TRABALHADORES
------------------------------
01
Uma língua de fumo, enorme, bandoleante,
Vai lambendo o infinito – espessa e fatigada…
É a fumaça que sai da chaminé bronzeada
E se condensa em nuvens pelo espaço adiante!
02
Dir-se-ia uma serpente de inflamada fronte
Que assomando ao covil, ameaçadora e turva,
E subindo… e subindo…assim, de curva em curva,
Fosse enrolar a cauda ao dorso do horizonte!
03
Mas, não! É a chaminé da fábrica do outeiro
- Esse enorme charuto que a amplidão bafora
-Que vai gerando monstros pelo céu afora,
Cobrindo de fumaça aquele bairro inteiro.
04
Ouve-se da bigorna o eco na oficina,
O soluço da safra e o grito do martelo…
Como tigres travando ameaçador duelo
As máquinas estrugem no porão da usina!
05
É o antro onde do ferro o rebotalho impuro
Faz-se estrela brilhante à luz de áureo polvilho!
É o ventre do Trabalho onde gera o filho
Que estende a fronte loura aos braços do Futuro!
06
Um dia, de uma idéia uma semente verte,
Resvala fecundante e, se agregando ao solo,
Levanta-se… floresce… e ei-la a suster no colo
Os frutos que não tinha – enquanto estava inerte!
07
Foi o germe da Luz, a flor do Pensamento
Multiplicando a ação da força pequenina:
- De um retalho de bronze ergueu uma oficina!
-De uma esteira de cal gerou um monumento!
08
Trabalhar! Que o trabalho é o sacrifício santo,
Estaleiro de amor que as almas purifica!
Onde o pólen fecunda, o pão se multiplica
E em flores se transforma a lágrima do pranto!
09
Mas não vale o Trabalho andar a passo largo
Quando a estrada é forrada de injustiça e crimes…
Porque em vez de frutos dúlcidos, sublimes,
Gera bagos mortais e de sabor amargo!
10
Ide ver quanto herói, quanto guindaste humano
Sob a poeira exaustiva e o calor fatigante,
Os músculos de ferro, o porte gigante,
Misturando o suor o seu pão quotidiano.
11
Sua força é milagre! A redenção bendita!
O seu rígido braço é a enérgica alavanca
O escopro milagroso, a chave que destranca
O Reino do Progresso onde a Grandeza habita!
12
Sem os pés desse herói a Evolução não anda!
Sem as mães desse bravo uma nação nas cresce!
A indústria não produz! A campo não floresce!
O comércio definha! A exportação debanda!
13
No entanto,vêde bem! Esses heróis sem nome,
Malditos animais que ainda escraviza o ouro,
Arrastam – que injustiça! – o carro do tesouro,
Atrelados à dor, à enfermidade, e à fome!
14
Quanto prédio imponente e de valor suntuário
Erguido para o céu, firmado no infinito,
Indiferente à dor, indifrente ao grito
De desgraça que invade a choça do operário!
15
De dia é no labor! Exposto ao sol e à chuva!
De noite, na infecção de uma choupana escura,
Onde breve uma filha há de tornar-se impura
E u’a mulher faminta há de ficar viúva!
16
Nem mesmo o sono acolhe as pálpebras cansadas!
O leito é a umidez dos fétidos mocambos!
O pão é escasso e duro! As vestes são molambos
E o calçado é paiol das ruas descalçadas!
17
Ali, a Medicina é estranho um só prodígio!…
Nunca um livro se abrirá em risos de esperança
Para encher de fulgor os olhos da criança,
Apontando-lhe o céu… mostrando-lhe um vestígio!…
18
Tudo é treva e descrença! O próprio Deus é triste
Ouvindo esse ofegar de corações humanos…
E a Lei – mulher feliz que dorme há tantos anos
-Não acorda pra ver quanta injustiça existe!
19
Onde está esse amor que os sacerdotes pregam?
Os estão essas leis que o Parlamento imprime?
O Código não pode abrir o seio ao Crime,
Infamando o pudor que os Tribunais segregam!
20
Vêde bem da fornalha a rubra labareda!…
Olhai das chaminés o fumo que desliza!…
Pois é o sangue… É o suor do pobre que agoniza
Enquanto a lei cochila entre os divãs de seda!
21
Que é feito desse herói? Ninguém lhe sabe a origem!
O Poder nunca entrou nas palhas do seu teto…
Somente a esposa enferma,o filho analfabeto,
E lá nos cabarés, – a filha… que era virgem!
22
Existe essa legião de mártires descrentes
Em cada fim de rua,em cada bairro pobre!
É desgraça demais que num país tão nobre
Que teve um Bonifácio e deu um Tiradentes.
23
Será preciso o sangue borbotar na lança?
E o cadáver do povo apodrecer nas ruas?
Tu não vestes, ó Lei, as próprias filhas tuas?
Morre, pois, mãe cruel, debaixo da vingança!
24
Mas eu vejo que breve há de chegar a hora
Em que a voz do infeliz é livre – na garganta!
Porque sei que esse Deus que nos palácios canta
É o mesmo Deus que pelos bairros chora!
25
Quanto riso aqui dentro! E lá fora, os brados!
Quantos leitos de seda! E quantos pés descalços!
Já que os homens não vêem esses decretos falsos,
Rasga, cristo, o teu manto! Abriga os desgraçados.
-------------------------------------------
Ps: Logo abaixo tem uma foto de Rogaciano Leite entre os humildes sertanejos