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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Convite
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Infância Bucólica
No meu tempo de criança
Eu pastorava as ovelhas
Sentia doce centelhas
Numa aurora de esperança
Era um tempo de bonança
Sobre o rio da fanasia
Onde as águas da magia
Com brilhos de inocência
Fecundava a consciência
Dando beijos de poesia.
Corria nos campos vagos
No meu cavalo-de-pau
Não sabia o que era o mau
Os ventos eram os afagos
Mergulhava em doce lagos
Adorava as pescarias
Contemplava as calmarias
Numa tarde de arrebol
Vendo falecer o sol
Nas auroras do meus dias.
Subia nas goiabeiras
Buscando frutas maduras
Num tempos de aventuras
Cobertas de brincadeiras
Para mim as ribanceiras
Era um mundo encantado
Que eu cruzava lado a lado
Pra desvendar os segredos
Andando sobre os lajedos
Ou cruzando o rio a nado.
Era um mundo de pureza
Ao redor dos passarinhos
Sentindo ternos carinhos
Dos beijos da natureza
No peito tinha a certeza
Da vida sem o rancores
Onde sonhos beija-flores
Beijavam com afeição
As pétalas do coração
Sugando puros amores.
sábado, 23 de janeiro de 2010
CAMINHANTE
Eu caminho nas rochas e nas flores!
Sou um ser de acertos e defeitos;
Tenho em mim alguns velhos preconceitos;
Sou a noite e também os esplendores.
Busco o centro mostrando alguns valores
Que residem nas grutas do meu peito;
Muito sei que não sou um ser perfeito,
E nas noites, procuro os meus fulgores.
Sobre a lâmina da vida eu caminho
Entre as rosas e o mórbidos espinhos,
Vez enquanto caindo para os lados.
Só não paro na estática do nada!
Nas recuo nas estrada bem curvada,
Sigo em frente com meus sonhos alados
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Ser tão Sertão
sábado, 5 de dezembro de 2009

Vi somente crepúsculos ao invéis de auroras
E à velhice cheguei aos solavancos.
IV
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

PRESENÇA DO PERFUME
Quando a mão com sutil delicadeza
Solta pingos de água num jardim
Cada pétala se abre dum jasmim
Num sorriso com dúlcida pureza.
Uma essência se exala com leveza
Dando beijos na mão com seu olor
Perfumando com plácido fulgor
Numa oferta divina do seu lume
"Sempre fica a presença do perfume
Entre os dedos da mão que rega a flor".
Cada dedo oferece os orvalhos
Derramados do céu da sua mão
E a flor faz surgir do coração
O presente divino dos seus galhos.
Colibris fazem vôos com atalhos
Numa pressa coberta de temor
Como lindos parceiros do amor
Beijam flores morrendo de ciúme
"Sempre fica a presença do perfume
Entre os dedos da mão que rega a flor".
A presença dos pingos cristalinos
Derramados da mão como presente
Faz a flor se abrir toda contente
Igualmente o sorriso dos meninos.
Do seu corpo surgem olores finos
Com mil beijos dum grande sedutor
Infiltrando-se nos dedos com ardor
Sem ouvir beija-flores com queixume
"Sempre fica a presença do perfume
Entre os dedos da mão que rega a flor".
Eu comparo a grandeza da verdade
Praticada através da ação humana
Quando a mão da virtude soberana
Joga os pingos divinos da bondade.
Sobre o campo da vida o amor invade
Com essências tocando o regador
Perfumando o seu gesto doador,
Onde Deus no seu peito logo assume
"Sempre fica a presença do perfume
Entre os dedos da mão que rega a flor".
Ps: Mote do poeta Xico Borges
quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O poema abaixo foi publicado na antologia poética "Retratos do Sertão", organizada pelo Poeta Marcos Passos---------------------
O Sertão é cruel e violento,
Mas também, é profundamente humano,
Quando seco, é macabro e desumano,
Quando verde, produz contentamento.
Tem miséria e também tem alimento,
Paradoxo de risos e de prantos;
Desencanta e demonstra mil encantos,
Revelando cenários de dois mundos
Um lugar de mistérios bem profundos,
Cada qual envolvido nos seus mantos.
Quando seco, os troncos contorcidos,
Das juremas com galhos ressecados,
Se parecem com corpos condenados
De famintos soltando mil gemidos.
Secos ramos são braços estendidos,
De fantasmas pedindo um alimento;
Num deserto de fome e de tormento,
Assustando quem passa no recinto,
Onde a vida é um fel feito absinto,
Amargando num triste sofrimento.
Se chover, tudo muda, velozmente:
Os fantasmas das árvores peladas
Vestem roupas de cores variadas,
Acabando o macabro ambiente.
O campônio vai pra roça contente,
Carregando no peito a esperança;
A mulher toma conta da criança
Tocaiando as panelas no fogão,
Na certeza de ter milho e feijão
Pra acabar sua fome, com bonança.
O deserto que, antes existia,
Com espinhos e serpes venenosas,
Dá lugar a paisagens primorosas,
Parecendo uma outra moradia.
Na campina aparece a sinfonia,
Duma orquestra de pássaros cantantes;
Borboletas, em ritmos dançantes,
Num balé, fazem mil vôos delicados;
Os sutis colibris, bem refinados,
Beijam flores, iguais a dois amantes.
Na vazante que estava ressecada,
A lagoa transborda na enchente;
Um tetéu solta seu canto contente
Num cantar que anima a passarada.
Sobre a terra que estava calcinada
Surge um córrego, puro e cristalino,
Dando beijo num grão bem pequenino,
Para em breve virar uma planta em flor,
Colorida e exalando um doce olor
Através de um perfume tão divino.
Sobre os galhos frondosos da aroeira,
Que na seca a visita era o sol quente
Quando chove, recebe alegremente,
Cada espécie de ave trepadeira.
Um tenor sabiá de voz brejeira
Solta um canto, coberto de esperança,
O qual mostra uma era de bonança
Diferente da época passada,
Quando quase morreu a passarada
Nos espinhos da vil desesperança.
O esquálido rio que estava morto
Ressuscita seu leito quando chove
O campônio no peito se comove
Que desperta a alma num conforto.
Fica olhando às águas, absorto,
Contemplando a mudança da paisagem
Onde antes só tinha a seca imagem
Vê o rio caudaloso com primores
Desenhando na tela mil fulgores
Onde o verde demonstra a mensagem.
O complexo sertão mostra dois mundos
Os quais são totalmente diferentes,
Com imagens e vidas oponentes
De heróis, que também são moribundos.
Os seus vales são ricos e fecundos;
Basta à chuva cair freqüentemente,
Que do chão brotará uma semente
Demonstrando um sinal de esperança,
Igualmente o sorriso da criança
Que verdeja o sertão que há na gente.
terça-feira, 17 de novembro de 2009

Alguns prantos da flor que emurchece
De manhã caminhando na campina
Entre as flores silvestres do sertão,
Despertou no meu ser uma visão
Vendo o pranto caindo em ondina.
A tristeza da flor bem pequenina
Era a cena da vida que padece;
Parecia um alguém fazendo prece
Com temor dos castigos mais ferinos,
Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece.
Suas pétalas tristonhas, sem ter água,
Se desfez dos belíssimos fulgores,
Cada pingo dos olhos eram as cores,
Se apagando no pé da triste mágoa.
A tristeza voraz causava frágua
Como alguém que, maldoso, lhe dissesse:
Hoje a vida pra você arrefece,
Só lhe resta o mais triste dos destinos,
Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece.
Borboletas voavam pelos campos
Assustadas faziam vira-volta;
A tristeza da flor dava revolta
Até mesmo aos calmos pirilampos.
Ela só tinha a frente os escampos
Onde a vida perdura e esmorece,
No deserto da angústia que entristece
A beleza que tem seus toques finos;
Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece
Até mesmo um pequeno beija-flor
Que voava em busca de uma essência,
Fez um pouso com lírica cadência
Vendo a flor com tristeza, sentiu dor.
Procurou com seu bico dar amor
Lhe beijando e dizendo a vida cresce;
Não se curve, que a dor desaparece,
Tenha fé nos poderes mais divinos,
Vi nas gotas de orvalhos cristalinos
Alguns prantos da flor que emurchece.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
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Desde o distante trilhar, no “Desafio das Léguas”, que o “Caboclo Sonhador” Maciel Melo vem montado no seu cavalo de versos e canções, rompendo a caatinga da anti-cultura, em busca de mostrar seus cantos e cantigas, dizendo “Sim e não a Reis e Rainhas”, e entoando a voz “Que Nem Vem-Vem” para os quatros cantos do Brasil.
Violeiro de primeira linha e portador de uma voz belíssima, o cantador pajeusense da poética princesa Iguaraci, louva “O veio d’água do Rio Pajeú”, o lendário feiticeiro da poesia e dos cantos, quando junto com seu violão universaliza a sua aldeia através de uma poética telúrica e comprometida com as raízes profundas da identidade sertaneja. Com o “Coração tão Sertanejo”, Maciel Melo vem abrindo “Alas para um novo Cantador” e nos mostrando através do seu canto universal a grandeza de um povo que não ficou tão órfão com a partida do “Rei do Baião”. O “Caboclo Sonhador” Maciel Melo trilha muito bem sobre as diversas formas de compor e cantar o Sertão nordestino. No seu trabalho encontramos o que se chama de erudito, de toada, de cantiga ou de herança trovadoresca, onde sua voz e seu violão de forma plangente ou não, nos mostra o Sertão com profundidade melódica e poética, onde “A barra-do-dia-a-dia” mostra a aurora de um cantador que tanto canta a dor crepuscular da vida sertaneja, como canta as auroras do Sertão na sua forma mais bela e encantadora. O cantador/menino que tem veios d’água do rio Pajeú nos seus dedos e coração sertanejo criou de forma muito peculiar o jeito de tocar o baião no violão, inventando uma batida inovadora, como fez João Gilberto através da Bossa Nova. Além de ser um trovador/erudito, o cantador do Pajeú é um dos maiores cantores e compositores no universo do Baião, Xote e demais ritmos da música que imortalizou o saudoso Luiz Gonzaga.
Ouvir as melodias telúricas do “Caboclo Sonhador” Maciel Melo nos remete as noites de São João, quando as “Damas de Ouro”, com seus vestidos de chita, multicores, enfeitavam as festas juninas, repletas de candura e inocência sertaneja. Caminhar “Na poeira e na estrada” dos xotes do cantador de Iguaraci é possível encontrar o amigo/cantador jogando luzes na escuridão das almas aflitas pelo mundo do desamor. Ao penetrar no profundo “Coração tão Sertanejo” da tropeiro/cantador percebe-se as “Marias da Labuta” do imenso mosaico/humano sertanejo, que como o "umbuzeiro elomariano", resiste às enchentes das dificuldades da vida, para cuidar da prole e do árduo trabalho camponês. A música de Maciel Melo é um trato puro e fino para falar do povo da sua aldeia sertaneja, que como os povos do mundo inteiro, sofrem as mesmas vicissitudes e alegrias dos que habitam o planeta terra. O Vate do Pajeú não inventa música, ele se faz cronista e cantador peregrino com sua viola e um “Coração tão Sertanejo”, sempre levando seus cantos e versos, “desfilando nas avenidas” do mundo, “num Forrofiado tão da bexiga de bom”.
Gilmar Leite
Coração tão sertanejo
Ao lembrar-me das bravuras de neném
Sou devoto de padim Ciço Romão
sábado, 7 de novembro de 2009


SER TÃO SERTÃO
No meu peito, palpita um ser sertão,
De invernadas ou secas causticantes,
Mostra os campos sutis e fulgurantes
E desertos que causam assombração.
Nele pulsa o crepúsculo dum verão,
Ou os fulgores das horas matinais;
Mostra os vales nos tempos invernais,
E revela os cenários de dois mundos,
Onde vivem os dois seres profundos,
Que têm secas ou grandes temporais.
No meu ser, o sertão vive presente,
Através dos costumes do seu povo,
Que resiste ao banal chamado novo
Parecendo um umbuzeiro imponente.
Nele pulsa as violas do repente
Através do improviso num arpejo;
Igualmente um relâmpago em lampejo
Numa chuva de versos que me acalma,
No profundo oculto da minha alma
Onde vive um campônio sertanejo.
No sertão da minha alma resplandece
A florada de um pé de umbuzeiro;
As sementes sutis do marmeleiro
Que a rolinha se alimenta como prece.
O meu ser tão sertão nunca fenece
Os jardins encantados da esperança;
Nele existe a certeza da bonança
Dum roçado com verdes pés de milho,
Onde o pai tem certeza que seu filho
Não irá mais sofrer desesperança.
Quem caminha na trilha do meu ser
Nela encontra o xaxado e o baião,
Na sanfona e na voz de Gonzagão
Onde o canto é a forma de viver.
Um vaqueiro abóia com prazer
No oculto curral da existência,
De um ser sertanejo por essência
Que carrega no peito a sua terra
Desde o vale, a caatinga e a serra,
Dando passos fieis da consciência.
No meu peito se encontra a ladainha
Das beatas rezando em procissão;
Mostra a fé do campônio do sertão
Enfrentando um viver que lhe espinha.
Canta dentro de mim uma rolinha
Num crepúsculo da tarde sertaneja;
Tem o som do caboclo na peleja
Conduzindo a boiada em passo lento,
Aboiando do peito um sentimento
Sob o sol causticante que dardeja.
Dentro de mim ecoa um dialeto
De palavras do homem camponês,
Que não fala o urbano português;
O dizer e entender pra ele é correto.
Na minh’alma carrego humilde teto
Das casinhas de taipa do sertão,
Que só tem na parede a devoção
Sobre a forma singela dum retrato,
De Jesus padecendo no maltrato
Como a forma cristã da redenção.
O meu sangue possui o puro cheiro
Das essências da flor duma jurema
O cantar da afinada seriema
Sob a sombra dum verde juazeiro.
Eu carrego na minha’alma um vaqueiro
Nas juremas fazendo vaquejadas,
Argolinhas, São João e cavalhadas,
Cantorias, folguedo, apartação,
A novena, promessa e procissão,
Tradições, que estão enraizadas.
O sertão não é só parte da terra
Ele está no profundo do meu ser
Pra senti-lo é preciso compreender
Desde o vale, a caatinga e a serra.
A grandeza de sê-lo nunca encerra;
Eu carrego com risos ou com prantos,
Através dos poemas ou dos cantos
Como símbolo da minha identidade,
Onde a flor da cultura é a verdade
Exalando os costumes com encantos.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
SAUDADE DE MARCOLINO
Marcolino, poeta cantador,
A “Cacimba” secou de tanto pranto
O “Carão” não escuta o teu canto
“Sabiá” padeceu de tanta dor.
O “Ciúme da Lua” se acabou
Hoje vives morando perto dela
Desenhando teu canto numa tela
Seduzindo-a com tua serenata
Despertando seu riso cor de prata
Num desenho de linda aquarela.
O “Serrote Agudo” está tristonho
O “Fura-Barreira já não tem mais casa
“Maribondo” já bateu a sua asa
O “Sertão de Aço” perdeu seu sonho.
Só os vates de cima estão risonhos
O teu canto é a “Saudade Imprudente”
Que machuca o sertão que há na gente
Como o pranto na “Mágoa de um Vaqueiro”
Que tristonho, num banco do terreiro,
Faz aboios saudosos e dolente.
Oh! Poeta “Caboclo Nordestino”
As caboclas “cintura de abelha”
Soltam prantos em forma de centelha
Com saudades do canto campesino.
A “cantiga do vem-vem” pequenino
Sobre os galhos da “Flor do Cumaru”
Faz sentir Cariri e o Pajeú
A saudade das noites de São João
Ou as tardes tristonhas do sertão
Entre os cantos dolentes do nambu.
Hoje já não se faz a mesma dança
“Nicodemos” partiu pra outros cantos
Não se encontram mais os mesmos recantos
Duma “Sala de Reboco” com pujança.
A saudade dos “Tempos de Criança”
A “Rolinha” com passos delicados
Um poeta com sonhos encantados
Numa “Estrada” pisando no destino
Pra partir nos deixando um lindo hino
Através dos seus cantos coroados.
terça-feira, 20 de outubro de 2009

O menestrel cantador do Pajeú Pernambucano foi um aedo que levou através da sua magistral poesia os cantos e encantos da sua aldeia nordestina para vários lugares do Brasil. Poeta de uma inspiração genial e de um conhecimento universal, Rogaciano deu um tratamento nobre a poesia dos cantadores de feiras, das pequenas vilas, povoados e cidades interioranas, lapidando o diamante poético dos homens rústicos do imenso mosaico humano, chamado nordeste brasileiro. Raogaciano foi um poeta repentista de uma capacidade de improviso sobre-humano; arquiteto das palavras e construções poéticas de forma perfeita; poeta de uma visão de mundo ampla; intelectual do mundo do repente e orador que encantava multidões por onde passava; o vate transcendeu em todos os aspectos a poesia em todas as dimensões de existência. Sua poesia lírica nos convida a trilhar nos abismos do amor romântico, lugar repleto de realizações amorosas, de solidões infernais, de angústias pelo abandono e do perdão pelos “que voltam pelo amor vencidos”. Sua poesia bucólica nos traz as mais lindas paisagens do Sertão nordestino, derramando belas imagens “onde o sol desdobra o manto feito de rendas de anil”. Seus versos passeiam pelo Brasil, desde o majestoso Amazonas, com suas florestas e lendas, até as belas praias do “Ceará Selvagem” e do sonho encantado da “Ilha Porchart,” no litoral paulista. Nos seus poemas praieiros e campesinos se encontra um poeta que sentiu a natureza viva nas entranhas do seu corpo sensível e aberto as encantos e desencantos do mundo vivido. O Rio Pajeú esbraveja nos desfiladeiros dos seus versos magistrais e se acalma na lagoa da sua simplicidade de homem sertanejo, que universalizou o “Pajeú das Flores” com beleza e sabedoria. Que o conheceu a luz da poesia diz que Rogaciano parecia um Deus em forma de gente falando através dos versos e fazendo as multidões entrarem em delírio poético. A sua força poética maior, foi em defesa dos oprimidos pelo capitalismo de um regime opressor. Se o bardo baiano Castro Alves foi a voz dos negros escravizados pela estupidez da chamada raça branca, Rogaciano foi a voz, não de uma raça, mas sim, de um povo injustiçado pela falta de assistência dos governos descomprometidos com as causas populares. Seu poema “Acorda Castro Alves” é um gripo profundo e alto, suplicando a vinda do poeta condoreiro para livrar os pobres dos grilhões da miséria social, que ainda reina no Brasil de forma contundente. No poema “Os Flagelados”, parece que Rogaciano estava na retirada degradante dos famintos homens do Sertão, vitimados pelas longas estiagens e pela falta de assistência governamental. Vamos encontrar no poema “Os Trabalhadores” as dores, a fome e o abandono dos homens urbanos, jogados nas sarjetas da miséria o do descaso social. Ao andar com Rogaciano, por entre as choupanas e palafitas das grandes favelas, como “Pirambú, em Fortaleza, nos seus versos, iremos encontrar uma população trespassada de fome e de sofrimento, que nem os malditos do inferno da Dante sofreram tanto. Em cada barraco, iremos encontrar por intermédio de Rogaciano crianças famintas e doentes, jovens jogadas no escuro do descaso social e pais e mães sem esperança para a chegada de novos dias. Vamos trilhar no poema “Os trabalhadores” para que possamos vê pelos olhos do poeta do Pajeú das Flores, os homens sem a luz da esperança, nesse imenso país que fulgura riqueza para tão poucos.
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terça-feira, 13 de outubro de 2009
ODISSÉIA SERTANEJANaveguei sobre os mares do sertão
Enfrentando as procelas do viver,
Subi ondas difíceis de vencer
Fui envolto na fúria de um tufão.
Conduzi minha forte embarcação
Em gargantas de rochas perigosas,
E passei por cavernas tenebrosas
Ocultadas nas brechas dum lajedo
Escondendo do mundo seu segredo,
Entre nuvens de formas vaporosas.
Abordei sobre as ilhas sertanejas
Pra um descanso da longa odisséia,
E escutei os sutis sons da idéia
Num confronto de vates na peleja.
Eram deuses em frente da bandeja
Com violas fazendo cantoria,
Num oráculo coberto de poesia,
Que guiava com sábio mandamento
O meu barco no mar do sentimento,
Sobre as águas da longa travessia.
Encontrei sobre os mares sertanejos
A coragem dos bravos cavaleiros,
Penetrando em fechados marmeleiros
Pra jogar os seus laços com ensejos.
Eram homens-heróis fazendo arpejos,
Semideuses com seu gibão de couro,
Que enfrentavam a fúria de um touro
Sem temer grandes chifres amolados,
Dando saltos nas cercas dos roçados
Que seus cascos brilhavam como ouro.
Enfrentei nas cavernas montanhosas
As ferozes panteras, de uma vez,
Com espada, coragem e altivez,
Minhas lutas foram vitoriosas.
Eu olhei das escarpas pedregosas
O sertão com seus grandes oceanos;
Levantei minha âncora e fiz planos
Pra levar as sementes da poesia
E plantá-las nas margens da alegria,
Derrotando os terríveis desenganos
Na jornada enfrentei grandes serpentes
Com a força e coragem de um Sansão,
Dando saltos, de espada sobre a mão,
Enfiando-a nas brechas dos seus dentes.
Eu lutei contras as feras mais valentes
Sem jamais recuar frente aos perigos;
Nem temer dos tiranos os castigos,
Que com fúria fechavam os caminhos
Me jogando em confusos remoinhos
Tendo ventos somente como abrigos.
Cavalguei sobre um lépido corcel
Nas caatingas fechadas do sertão
Com perneira, espora e um gibão,
E brilhantes estrelas no chapéu.
Vi as nuvens correndo sob o céu
Num crepúsculo de cor avermelhada,
Parecendo uma rápida boiada
Procurando um curral na imensidão,
Pra deitar-se na cama da amplidão
E acordar com o vaqueiro da alvorada.
Mergulhei num inferno tenebroso
Que nem Dante deu passos com Virgilio,
Vi pedintes suplicando um auxílio
Num lamento cruel e lastimoso.
Percebi que não tinha criminoso;
Eram vitimas no mar do abandono,
De governo que tem homens no trono,
Aumentando a miséria dos famintos
Transformando o viver em absintos,
Onde a vida é um fel de desengano
Fui visita dos reis e das rainhas
No império do mundo sertanejo,
Que divide a comida sem ter pejo
Sob o teto das lânguidas casinhas.
Vi meninas cobertas de florinhas
Parecendo belíssimas princesas,
Exalando as mais puras gentilezas
Num reinado com flores de bondade,
Me mostrando a sutil fraternidade
Praticada com mil delicadezas.
Eu vi ninfas caboclas do sertão
Num roçado plantando lindos sonhos,
Entoando os sutis cantos risonhos
Numa lírica e plácida canção.
Tinha um lírio enfeitando cada mão,
E nos lábios o brilho dum sorriso;
Era o mundo mostrando o paraíso
Na figura mais pura da inocência
Onde a flor que habitava a consciência,
Exalava o seu néctar preciso.
Encontrei sobre as margens dos barreiros
Sertanejas com ares sedutores,
Com olhares cobertos de fulgores
Dando passos suaves e maneiros.
Eu senti os seus hálitos faceiros
Envolver-me com mágica leveza,
Eram encantos da própria natureza
Seduzindo meus loucos devaneios,
De caboclas que tinham lindos seios
Com feitiços de plácida beleza.
Eu fiquei divagando sobre os mares
No sertão do nordeste brasileiro;
Foi usando o veloz barco-vaqueiro
Que eu passei por insólitos lugares.
Visitei os difíceis patamares
E os abismos que têm na imensidão;
Vi fantasmas cruéis da solidão
Como nuvens pesando sobre mim,
Que eu pensei que seria o meu fim
Na odisséia longínqua do sertão.
E depois de andar por vários recantos
Eu voltei pro meu canto pequenino,
O lugar dos meus tempos de menino
Onde a vida era plumas de acalantos.
Retornei conduzindo n’alma encantos,
E também os pavores de outros mundos;
Vi a dor castigando os moribundos,
Vi princesas, serpentes, mil panteras,
Cantadores, vaqueiros, grandes feras,
Que tocaram meus mares mais profundos.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Mergulhei sobre o lírio da lembrança
De mamãe exalando a flor do riso,
Vi na pétala do rosto um paraíso
Perfumando minha alma de criança.
No seu cálice brotava a esperança
Onde a sépala da flor da inocência,
Protegia o meu grão de existência
Num jardim colorido, bem risonho,
Onde o pólen da vida mostra o sonho
Germinando o fulgor da consciência.
Tomei banhos nos pingos dos orvalhos
Que mamãe derramava do seu rosto;
Parecia o luar do mês de agosto
Com reflexos nas flores dos carvalhos.
Suas mãos para mim eram os galhos
Estendidos, fazendo mil carinhos,
E mostrando nos campos os caminhos,
Onde a vida se faz com liberdade,
Entre as plumas sedosas da verdade
Como as aves fazendo os seus ninhos.
Sobre o bosque materno dei mil passos
Vendo a flor de mamãe em cada planta,
Sua essência mostrava uma santa
Perfumando meu ser com mil abraços.
Os seus braços pra mim foram os laços
Confortando o meu corpo inocente;
Do seu peito brotava uma semente
Sobre a forma singela do amor,
Perfumando minha alma com fulgor
Me mostrando uma luz para ser gente.
Lindos sonhos trazidos da lembrança
Hoje tenho guardados sob a mente,
De mamãe que se faz sempre presente
Ofertando o seu riso numa dança.
O seu mundo, eu tenho como herança,
Que me guia nos bosques da bondade,
Sua luz de amor sempre me invade
Clareando os recantos do meu peito,
Onde a flor do seu riso é um enfeito
Que me cobre com flores da verdade.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Saudade do Tempo de Menino
Na caverna profunda da memória
Lembro a vida florindo inocência
Não sabia do negror da consciência
Expressado nos dramas da história.
Minha vida só tinha a flor da glória
Era um mundo coberto de bonança,
Onde o sol da bondade numa dança
Me cobria com um brilho cristalino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.
Galopava num cavalo de pau
Na campina florida do meu sonho;
Um campônio alegre bem risonho
Despertava num instante matinal.
Na floresta o cantar fenomenal
Do concriz, seresteiro que não cansa;
Esse mundo ecoa com pujança
Entre os vales do sonho tão divino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.
Lembro bem das vazantes alagadas
Os tetéus numa orquestra delirante,
As marrecas voando bem rasante
Desenhando no céu linhas curvadas.
Nas campinas florinhas orvalhadas
Perfumava com lírica aliança;
Era um mundo de linda aventurança
Que hoje guardo no sonho campesino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.
Eu pulava no poço mais profundo
Sobre as águas marrons do Pajeú
Com meu corpo esguio, quase nu,
Deslizava num rápido segundo.
Para mim não havia outro mundo
Diferente do mundo da criança;
Era um tempo feliz de esperança
Que hoje guardo na forma de um hino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.
Logo cedo corria pro roçado
Pra cuidar do meu bando de ovelhas,
E ficava feliz vendo as abelhas
Preparando o cortiço encapado.
Para mim, era um mundo encantado,
Que me dava no peito segurança;
Hoje choro por causa da mudança
Que chegou, transformando meu destino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.
Sobre a tela da mente ainda vejo
O Sertão se mostrando na invernada,
A cantiga sutil da passarada,
O semblante feliz do sertanejo.
Na memória, eu guardo o gracejo
Da rolinha mostrando sua andança;
Esse mundo que não tem semelhança,
Ele vive no meu sonho mais grã-fino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.
Inda vejo mamãe na flor do riso
Preparando o café toda manhã;
O seu jeito suave feito lã
Revelava do rosto um paraíso.
A bondade foi seu mundo preciso
Que procuro vivê-la como herança;
É a luz que me dar perseverança
Pra enfrentar esse mundo tão ferino;
A saudade do tempo de menino
Fez morada na gruta da lembrança.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O BUCÓLICO MUNDO DO POETA CANCÃO
Ao debruçasse na poesia do poeta pássaro, um conforto de delicadezas atinge a nossa alma, como o bater das asas de uma borboleta sobre as flores de um plácido jasmim. Cada pingo de orvalho que escorre através dos seus poemas bucólicos, banha nosso espírito de afetos, numa cachoeira de rimas e ritmos, com palavras belas, que embevecem e transbordam a lagoa dos nossos sentimentos. A sua poesia faz as estrelas ficarem bem próximas da gente, nas quais, os dedos da nossa alma podem tocá-las e senti-las, recebendo os fulgores poéticos que clareiam a imensidão dos sentidos. Nos poemas de Cancão tudo se torna possível. O “cisne”, pássaro de outras regiões vem nadar no rio da sua aldeia; a “maresia indiana” traz seu cheiro para perfumar o corpo de uma professora amiga; a pantera solta rugidos nas grutas do seu pequeno lugarejo; algumas flores de outras regiões embelezam as campinas do Pajeú; enfim, o poeta transporta para sua aldeia animais e plantas de outras regiões, construindo um inusitado nicho ecológico.
Cancão conseguiu através de a poesia campestre mostrar a caatinga sertaneja na explosão invernal dos tempos de chuvas da forma mais encantadora possível. Seu poema “Depois da Chuva” desenha a beleza da flora e fauna do sertão nordestino de uma forma tão sublime e bela, que até parece que todos os poros do corpo tinham um olhar de sensibilidade atento para aquela “tarde de abril”, quando o rouxinol, o sabiá, os colibris, os regatos, as borboletas, as abelhas, o sol e as flores, formaram um mundo de encantos bucólicos, ocultados na alma e revelados através de um poema clássico, digno da mais fiel enciclopédia Universal da Poesia.
O poeta/verde conseguiu com profunda sensibilidade e domínio das palavras aproximar o homem da criação divina. Cada verso, que ele fez sobre a natureza, é de uma perfeição tão impressionante, que uma enxurrada de emoções inunda cada lagoa do nosso coração. Mergulhar no mundo do aedo bucólico, saborear seus poemas, sonetos e outras formas literárias nos torna o mais humano dos humanos; faz-nos crer, que o mundo visto por ele e expressado pela verve é o lugar do sonho e da fantasia. Cancão nos proporcionou a viajar nas asas dos colibris, dando beijos nas flores das campinas; nos fez sentar nas estrelas; nos fez sonhar com a liberdade através de um sabiá na solidão de uma gaiola; levou-nos aos riachos cristalinos da sua aldeia; nos fez verter prantos pela rolinha que teve o “Ninho Roubado”; causou-nos uma reflexão profunda sobre a morte, na solidão das “Seis horas no Cemitério”; mostrou-nos os detalhes da casa sertaneja, que abrigava um pobre ébrio solitário; transportou-nos para o mundo dos aborígines do Pajeú, com seus pajés, feiticeiros, caciques, arcos, flechas e tacapes; enfim, a sua poesia é uma viagem de delírios, devaneios e sensações através das belezas da natureza e da profundeza da alma humana.
Sentir os seus encantos poéticos, causa ao espírito humano uma espécie de doçura e ternura angelical. Cresce dentro da gente uma vontade inexorável de contemplar a vida e deixa a nossa existência enternecida.
Mas, como ser humano, Cancão sofreu as dores da solidão. No poema “Lamentos ao pé do tumulo”, ele externa todo o ódio a terra que tanto decantou, por ela ter levado a mulher amada.
Acredito que o poeta do “Pajeú das flores” deve está nesse instante no paraíso celestial da poesia, declamando poemas, acendendo estrelas e jogando orvalhos nas madrugadas celestiais.
Se os gregos de outrora tivessem conhecido a poesia de Cancão, com certeza o teriam posto no trono de Zeus e colocaria na sua cabeça divina a coroa de um Deus/Poeta.
Hoje, depois de vários milênios, pós era grega, e depois de algumas décadas da partida do vate da natureza para morar junto aos deuses das artes no Olimpio celestial, o poeta egipciense é extremamente necessário para esse mundo louco, de tantos sentimentos vazios e mecânicos.
Se um dia Deus resolver mandar um emissário a terra, acredito que será o poeta campestre que virá, trazendo o mesmo espírito humano, a mesma inocência e simplicidade, a grande sensibilidade poética e os ensinamentos de respeito, amizade, fraternidade e solidariedade, que ele tanto mostrou através dos seus versos.
Apesar da sua poesia não denunciar de forma constante as opressões sociais sofridas pelos afortunados e desamparados do poder governamental, Cancão seguiu o mesmo caminho na construção do homem a partir da natureza, como fez o grande filósofo e educador Jean-Jacques Rousseau, no clássico e poético livro, o “Emílio”.
Mesmo não relatando as agressões do homem à natureza, Cancão foi e é uma espécie de educador ambiental. A poesia por si própria educa o homem, e quem lê os versos campesinos do poeta pajeusense, enxerga a natureza de maneira interativa, respeitando-a com carinho e admiração.
Apesar do pouco estudo acadêmico, tendo só cursado o primário da época, Cancão foi um exímio autoditada. Ele leu os grandes poetas clássicos, como Casemiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, dentre outros, sofrendo assim, certa influência dos poetas clássicos. Mas, acima de tudo ele teve um estilo literário próprio, embora tenha escrito alguns sonetos. O mais impressionante era a grandeza da verve. Com poucos temas ele criava um mundo de poesia. Bastava uma cena fugaz de alguma manifestação da natureza, que ele a eternizava de maneira impressionante. Não foi um poeta da viola como a maioria dos poetas contemporâneos, mas glosava de improviso entre os vates amigos com a mesma capacidade dos grandes menestréis do repente.
O nome de batismo era João Batista de Siqueira, mas não poderia existir um apelido mais digno do que Cancão, que é um pássaro de cor preta e branca, que habita as altas arvores da caatinga sertaneja e encanta através de um canto agudo e melodioso.
Todos os amantes da poesia deveriam agradecer ao grande criador do universo, por ter presenteado sobre a forma humana, a prova mais fiel da sua existência enquanto arquiteto das coisas belas que compõem o mundo dos humanos. Cancão, pureza da alma, exemplo de humildade, encantador que usou a poesia para elevar nosso espírito, pincel vernáculo dos poemas campesinos, voz singela dos humildes, plantador de sonhos e fantasias, obrigado por nos proporcionar um mundo belo, cheio de auroras e esperanças, nesses tempos de tantos ocasos e incertezas.
Dourava os morros azuis
Tornando o céu uma bela
Pulverização de luz
A aura fresca e macia
Por entre a mata fazia
Os mais suaves rumores
As borboletas douradas
Se misturavam vexadas
Bebendo o róscio das flores
As auras rumorejavam
João Batista de Siqueira (Cancão )




